Patrícia Sugino

Projeto Histórias - Patrícia SuginoBem, pra quem não me conhece, meu nome é Patrícia Sugino. Tenho 32 anos, sou médica especialista em oftalmologia e moro atualmente em São Paulo. Recebi meio de surpresa o convite para contar minha história no soft e eu fiquei sem nem saber direito como começar.

Falar de soft é falar praticamente de toda a minha vida, já que cresci jogando e o esporte envolveu toda a minha família.

Sou bem ruim com datas, então vou contar os fatos que mais me marcaram, mas isso não significa que ocorreram nessa exata ordem cronológica.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoNão lembro exatamente com que idade e nem como comecei a gostar desse esporte tão difícil de explicar para os meus amigos. Lembro de algumas cenas, como meu pai, me falando que ia me levar pro “só futebol”:

  • Mas pai, é futebol?
  • Nãão… é só futebol!

Projeto Histórias - Patrícia SuginoComecei pequena, na categoria mirim, e fui muito bem recebida pelas meninas do Gigantes no primeiro dia de treino.Eu era (e ainda sou) muito tímida. Na infância, era muito pior. Sempre tive dificuldade em fazer amizades e era daquelas que apanhava na escola. Naquela época, eu era muito menininha e na verdade, o que eu queria mesmo era dançar ballet e aprender a tocar piano, coisas muito diferentes do que meu pai e a vida planejavam para mim.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoAcabei me enturmando muito rápido, e apesar das dificuldades de coordenação motora e de obviamente sofrer alguns bullyings, o soft se tornou um momento de lazer no final de semana. Íamos meus pais, eu e meu irmão pro campo todos os sábados e domingos. Encontrava as minhas amigas, treinava, brincava, jogava queimada na hora do almoço e ia pro Walmart comprar chocolate e donnuts. Viajava  as vezes para jogar torneios fora de São Paulo e estar com as meninas do meu time era sempre muito divertido.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoTudo isso mudou quando subi de categoria, e o nosso novo sensei, que já tinha fama de bravo, mostrou que aquilo ali não era mais brincadeira. Sensei Higashi era técnico de seleção e colocou todo mundo na linha. Se chegasse atrasada ia ter que correr mais. Não dava pausa pra beber água, fazia exercícios até passar mal. Se perdesse um jogo então, espera só o treino da semana que vem!

Voltava com as canelas roxas pra casa de tanto tomar bolada, voltava tão quebrada que doía até pra sentar para fazer xixi na manhã seguinte. Eu vivia agoniada, porque sexta eu pensava “putz, amanhã tem treino!”, e domingo: “putz, amanhã tem aula!”.

Foi uma época difícil. Eu morria de medo do sensei, e não tinha o perfil igual ao das outras meninas. Eu sempre fui lerda, meio inocente, insegura e sabia que eu não era tão boa quanto elas.  Eu treinava muito. Comecei até a treinar no meio da semana, mas parecia ainda não ser o suficiente.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoA gente também tinha que acompanhar as categorias de cima, então em algumas épocas, tinha torneio quase todos os finais de semana, mas eu nem tinha chance de jogar. Isso de ficar eternamente na reserva e entrar uma vez pra rebater no final do último jogo (só pra dizer que entrou alguma hora) me frustrava muito, ainda mais porque via meus pais tendo que pagar transporte, comida e outras coisas, e eu sabia que ia lá só pra assistir os jogos, arrumar e carregar o material. Não podia deixar de ir também, se não, levava bronca.

Por mais que me esforçasse, parecia não conseguir sair do lugar e só tomava porrada o tempo todo. Eu tinha certeza que não tinha nascido pra ser atleta, e sofria muito com esse sentimento de impotência e insegurança. Essa foi uma época em que pensei em parar de jogar. Pedi pra minha mãe pra não precisar mais ir pro campo e as vezes, chorava quando chegava em casa depois de mais um desses campeonatos (pra mim, inúteis).

Projeto Histórias - Patrícia SuginoAcredito que eu não parei pelos meus pais. Meu pai sempre me dizia que se eu achava que alguma coisa era difícil, então eu tinha que me esforçar mais do que os outros para conseguir. Desistir é um caminho mais fácil e isso não existia no vocabulário dele. Lembro até hoje a primeira vez que ele me contou, depois que eu já jogava melhor,  que um dos meus antigos senseis disse uma vez que eu nunca iria para a seleção porque eu não levava jeito. Meu pai retrucou perguntando se tinha isso escrito na minha testa (ele nunca engoliu esse comentário) e completou dizendo que você nunca deve julgar uma criança.

Enfim, depois de um tempo e de muuuito treino, as coisas começaram a melhorar. Já jogava melhor, já rebatia melhor e eu não ficava mais tanto na reserva. Aos poucos, eu ganhava a confiança do sensei e conquistava meu espaço. Já tinha ganhado até uns troféus, nem eu acreditava.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoAí, veio a época das seletivas e uma que me marcou muito. Foi a primeira seleção da Capital das meninas do meu ano (sim, isso existia e era meu sonho ter aquele agasalho vermelho escrito “Capital” nas costas). Bem, em resumo, TODAS as quatro meninas de 86 do Gigantes foram convocadas, MENOS EU.  O pior de tudo foi que a tia que era a manager dessa seleção me disse que eu estava na lista e que era pra eu ir escolher meu uniforme. Só que quando eu estava lá, feliz da vida olhando as camisetas, vieram me falar que na verdade, havia sido um engano. Nem gosto de lembrar de como me senti aquele dia e nem de como aquilo tinha acontecido.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoDepois disso, treinei com mais vontade do que nunca. Treinava até não ter mais onde formar calo na mão. Usava duas luvinhas e ainda esparadrapo por baixo pra dar conta do tanto de batting que eu fazia no meio da semana. Tentava de todos os modos chegar à perfeição do swing (obrigada sensei Otsuka e Sensei Koshino por toda a técnica, paciência e fé em mim), e naquele ano, comecei a me destacar como rebatedora. A gente só tinha duas chances de ir pra seleção da Capital porque depois, subia de categoria. Aquele era meu último ano.

Eu estava numa época boa, e tinha grandes chances de ser convocada, só que pouco tempo antes da seletiva, torci meu tornozelo e tive que ficar de molho um tempo, não podia correr.  O técnico na época era o Sensei Ariki, e ele perguntou se não podia me escalar na seleção só pra rebater, não precisava correr. Isso bastou para que eu me sentisse feliz. Apesar de nunca ter conseguido meu agasalho vermelho, eu sei que pelo menos naquele ano, ninguém tiraria meu nome daquela lista.

Depois da recuperação, tudo foi melhor e o batting se tornou meu ponto forte. Continuei treinando muito, e o próximo passo era conseguir bater um home run. Meu pai colocou isso como um desafio para mim, e apostamos que ele ia parar de fumar se eu batesse 2 num mesmo campeonato, mas infelizmente, nunca ganhei essa aposta.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoMeu primeiro home run e meu primeiro troféu de rainha do quadrangular foi num campeonato no Cooper em 2001. Acho que esse campeonato fez com que eu ganhasse mais reconhecimento tanto dos meus técnicos quanto dos adversários. Nunca mais bati tantos hits num mesmo final de semana, mas o mais importante era que agora, eu via o orgulho estampado na cara dos meus pais. Eu finalmente conseguia sentir orgulho de eu mesma.

No ano seguinte, fui finalmente convocada para a minha primeira seleção.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoEssa foi uma conquista pessoal, pois no fundo, eu realmente duvidava que um dia estaria entre as melhores jogadoras, e jogar representando o Brasil ainda era algo totalmente fora da realidade. Essa foi com certeza, a seleção mais divertida que participei.

Dali em diante, o soft fazia cada vez mais parte da minha vida e da minha família. Meu pai virou juiz, meu irmão e primos também estavam jogando. Eu treinava durante a semana, nos finais de semana, nas férias, em casa… E assim vieram as conquistas de campeonatos Brasileiro, Taça Brasil, viagens com outras  seleções, etc.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoNosso time se tornou um dos mais fortes na época, e éramos muito unidas. A gente conversava muito antes e depois dos jogos, conversava em campo o tempo todo e torcia demais. Aprendi muito jogando e treinando com o Gigantes e as vezes lembro de finais de campeonato que dão até arrepio de pensar na adrenalina, de lembrar daquele friozinho na barriga, do clima de rivalidade e da vontade de ganhar pelo time que eu sentia. A gente comemorava cada rebatida e cada defesa, dava pra sentir que todo mundo dava o sangue pelo time. Eu admirava demais as minhas companheiras de equipe. Achava (e continuo achando) que elas eram as melhores que poderiam existir. Disso, eu realmente sinto muitas saudades.

Sempre tive meus altos e baixos, ainda mais porque era incrível como em todas as épocas em que estive jogando melhor, eu acabava me lesionando e aí o jeito era esperar a recuperação e reiniciar os treinos para tentar voltar a jogar bem novamente.

Me lembro de um torneio em que tive um entorse de tornozelo em um dos jogos do sábado, mas continuei jogando até o final do domingo, com a ajuda de tornozeleira, muito esparadrapo e compressas de gelo entre os jogos.

Rasguei o joelho esquerdo num “suberi” na final de um campeonato no Cooper. Quando me levantei, a calça estava rasgada, escorria muito sangue e eu via umas gordurinhas pulando pra fora. Ainda bem que fui safe, mas fiquei com muita raiva por não poder terminar o jogo, que estava disputado, e depois comecei a chorar de desespero, porque não queria levar pontos.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoA parte engraçada de tudo isso foi que, além de terem me obrigado a sair do campo carregada numa maca,  meu pai me levou para a clínica em que ele trabalhava. Quando chegamos, a médica olhou pra mim e disse para o meu pai: “nossa, mas seu filho é lindo!” e eu levei a maior bronca por estar com o boné virado para trás e estar realmente parecendo mais um menino.

A lesão era grande e a médica preferiu não mexer. Meu pai então, me levou para o Hospital São Luiz, onde finalmente suturaram meu joelho. No caminho para o hospital, comecei a sentir muita dor, porque a adrenalina já tinha abaixado, e eu sentia cada lombada e cada buraco que o carro passava. Acho que foi a viagem mais longa da minha vida.  O resultado foi de mais de 40 pontos (internos e externos), mais um tempo de repouso e uma baita cicatriz.

Em meados de 2004, veio a notícia de que seria iniciada a seletiva para o Campeonato Pan-americano no Rio de Janeiro.

Eu estava no 3º colegial e tinha decidido prestar medicina. No início da seletiva, éramos em muitas jogadoras e cortes eram feitos de tempos em tempos. Jogar no Pan-americano parecia um sonho para mim, mas resolvi me dedicar para tentar minha vaga. Não passei direto na faculdade e em 2005, fui para o cursinho.

Vida de cursinho não é fácil para ninguém, mas descobri que prestar medicina é cruel. Você vê um monte de gente inteligente pra caramba lá, há 2, 3, 4… 6  anos sem conseguir uma vaga. Você vê seus amigos te explicando como resolver os exercícios mais complexos e pensa se realmente existe chance de você passar, já que eles ainda não passaram. Você deixa de lado a vida social, faz aulas extras de um monte de matéria que tem dificuldade, fica no plantão de dúvidas, ou seja, estudar toma praticamente todo o seu tempo livre.

O ano de cursinho foi bem tenso. Eu treinava durante a semana e aos finais de semana. Faltava nos treinos as vezes por causa de simulados ou de provas. Desse ano, minhas maiores lembranças são da sala de estudos do cursinho, porque eu praticamente morava lá. Participei do campeonato brasileiro junto com a Bianca Watanabe, hoje colega de profissão mas que na época, era minha companheira de sofrência. No intervalo de aulas da segunda-feira, após o campeonato, a gente juntava umas cadeiras na sala de estudos e dormia lá por alguns minutos pra conseguir terminar de acompanhar as aulas da manhã.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoNo cursinho, tinham algumas pessoas que também jogavam e acabamos formando um time misto. Participamos até de um torneio naquele ano. Na época das provas no final do ano, eu já quase não conseguia treinar e tive que abrir mão de um campeonato com a seleção.

Apesar da vida corrida, dividida entre horas de treino, estudo e simulados, Deus quis que eu entrasse na faculdade em 2006. Só que a faculdade era láááá em Marília e pra dizer a verdade, eu não queria ir. Queria fazer mais um ano de cursinho pra tentar passar em alguma faculdade em São Paulo ou mais perto daqui, afinal, prestei FAMEMA apenas pra treinar, eu nem contava com essa possibilidade!

Nem preciso dizer que (ainda bem que) meu pai quase me matou quando disse isso pra ele e meio contrariada, fui pra Marília com a minha mãe no início de março pra semana da matrícula e apresentação da faculdade. Meu pai, não conseguiu ir porque estava fazendo um curso para árbitro e uma das aulas tinha mudado de data pelo atraso do voo de um dos professores, mas ele ligava sempre, todo feliz pra ver como estávamos.

Pois é. A vida as vezes prega umas peças na gente.

Já era noite, eu estava na casa dos meus tios em Marília, quando o celular da minha mãe tocou. Eu atendi e alguma voz do outro lado da linha falava o nome do meu pai, mas não respondia o que eu perguntava. Desliga telefone. Telefone toca novamente, minha mãe atende. E aí, a notícia. Meu pai tinha sido assaltado e tinha levado 2 tiros enquanto saía da clínica em que trabalhava. Justo no dia em que resolveu ficar trabalhando até mais tarde e tinha dispensado o segurança. Justo esse curso de juiz que ele tinha que fazer e esse voo que tinha que atrasar.

Daí em diante, eu não conseguia mais raciocinar. Eu nem sabia se acreditava. Só lembro de arrumar as malas e do meu tio pegando o carro. Passamos em Ribeirão Preto para buscar meu irmão. Daí, São Paulo. IML. Velório. Choro, muito choro. Muitas homenagens. Mensagens de apoio, num momento em que não existe chão. Escrevi até um poema. E não sabia mais o que fazer. Levei o atestado de óbito pra faculdade pra justificar as faltas, mas queria largar tudo. Sumir, voltar pra casa e talvez, acordar desse sonho ruim.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoMas, a vida não para. Ninguém para porque seu mudo caiu. E aí, a única opção foi seguir em frente e iniciar as aulas. Tive muito apoio lá em Marília, principalmente dos meus tios, meus primos e dos meninos do time de beisebol. Como alguns dos jogadores também já tinha feito parte do meio, a notícia chegou até eles, sem que eu precisasse contar. Não sei o que eu teria feito sem essa força.

Juntei meus pedaços e resolvi então, que não ia desistir de nada. Afinal, meu pai sempre sonhou que eu fosse médica e sonhava que eu também fosse para o Pan-americano. Então, persisti. Poucos meses depois, faleceu minha avó materna. Meu mundo desabou novamente. Essa época não foi nada, nada fácil. Além das perdas de dois entes muito queridos, ainda tinha a questão financeira que pesava muito. Minha mãe tinha acabado de se aposentar pela Vasp (que tinha acabado de falir) e meu irmão também fazia faculdade fora de São Paulo, contamos com muita ajuda da nossa família e sou grata até hoje ao bolsa atleta, que apesar de não ser muita coisa, me sustentou quase que a faculdade inteira.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoMas, como eu disse antes, o mundo não para. Os treinos não param, os cortes nas seletivas não perdoam. Eu treinava em Marília todos os dias. Treinava com o time de beisebol da faculdade. Corria, ia pra academia. Treinava à parte com o Sensei Fumio (na época, técnico dos meus primos), as vezes treinava com as meninas do time de Marília. Chegava sexta a tarde e pegava o ônibus para São Paulo. Chegava aqui tarde da noite. Minha mãe me buscava na rodoviária e me levava sábado de manhã para Ibiúna. Treinava sábado o dia inteiro, dormia lá, treinava domingo de manhã e a tarde voltava pra São Paulo pra pegar uma carona quando dava tempo ou novamente o ônibus da meia noite pra Marília. Chegava lá umas 5-6h da manhã e tentava estudar um pouco antes da aula de segunda feira, quando o ciclo recomeçava (só que acabava dormindo na maioria das vezes).

O dinheiro era realmente bem curto. Como eu recebia bolsa atleta, não tinha direito a ajuda de custo da passagem pra ir para São Paulo treinar com a seleção. Apesar de querer almoçar com a minha mãe em casa depois do final de semana, não consegui que me liberassem do almoço com o time e paguei por todas as fichas de almoço de domingo que eram “obrigatórias”, as quais nunca consumi.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoBem, acho que nem preciso dizer que eu vivia estressada e cansada. Não conseguia estudar direito. A maioria dos professorem me olhava com um ar de reprovação e eu escutava o tempo todo que ia ser médica e não atleta. Que eu tinha que escolher o que ia fazer da minha vida. A pressão dos cortes da seleção aumentavam a cada semana, assim como a rivalidade entre as atletas, a cobrança pelas estatísticas dos jogos, a expectativa de amigos e familiares. Eu não conseguia ir nos eventos da faculdade, mal socializei com a minha própria turma e para completar, ainda estava de luto.

Quando volto pra essa época, lembro que me sentia sufocada o tempo todo. Muitas vezes achava que estava fazendo todo aquele esforço em vão. Meu rendimento como atleta também não estava bom e hoje, olhando pra trás, faz sentido que não estivesse mesmo. Acho que eu estava depressiva. Uma professora (psicóloga ou psiquiatra, não me lembro) chegou a falar pra eu me consultar com ela uma vez. Anotou o numero do celular num cartão e disse pra eu ligar, mas eu nunca liguei. Não tinha crédito no celular e talvez eu não quisesse tocar nesse assunto.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoEm 2007, na época do Pan-americano, no último corte, depois de atletas machucadas e algumas reviravoltas, mal acreditei quando vi meu nome lá, na lista final. Fiquei triste com o corte das meninas que assim como eu, treinaram tanto para tentar uma vaga no time.

Era um misto de sentimentos, mas foi mais um alívio. Emocionalmente, eu estava um caco e parecia que eu conseguia respirar pela primeira vez. Minha família e meus amigos ficaram super felizes, e aí, por alguns momentos, pude curtir essa fase.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoAinda bem que fizemos questão de participar da abertura dos jogos. Fretamos um ônibus pro Rio e fomos, sem pensar muito. Acho que é o momento que eu mais me recordo. Receber a roupa da abertura foi uma festa. A gente ganhou um chapeuzinho verde e amarelo engraçado, uma saia verde, uma camisa branca e um casaquinho. Estava um pouco ansiosa e curiosa pelo momento. Todos os atletas se arrumando e depois se concentrando no refeitório da vila olímpica.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoDe lá, partimos pro estádio do Maracanã e aí tive uma ideia do tanto de gente, de todos os lugares e de todos os esportes que estavam ali. Me lembro de terem nos organizado em fila e a gente ia caminhando rumo à entrada do estádio. Quando finalmente entramos, foi uma emoção sem tamanho. Não dá para descrever a energia daquilo. O estádio lotado, todo mundo gritando, música, tudo muito bonito! Eu estava maravilhada e não sabia nem pra onde olhar, não sabia se tirava foto, se gravava, foi muito mais do que eu esperava. Um momento e uma energia inesquecíveis que guardei pra sempre dentro de mim. Entrar no Maracanã lotado, representando o nosso país. Isso não tem preço.

O campeonato em si valeu mais como experiência de vida mesmo. Tive meus 15 minutos de fama por causa de umas fotos que tiramos para divulgar o soft e as pessoas me pediam fotos, autógrafos pela vila olímpica e no estádio. Achava isso engraçado, apesar de um tanto cansativo. Tive até que inventar uma assinatura!

Tivemos vários jogos cancelados por causa das chuvas, mas jogamos contra os Estados Unidos, que tinha as melhores jogadoras do mundo. Perdemos, é claro, mas fiquei admirada de poder vê-las de perto. Tentar rebater a bola da Jennie Finch, a principal arremessadora na época, era algo que nunca imaginei que chegaria a fazer. Tivemos alguns jogos mais disputados, pude ver que se tivéssemos um suporte melhor e mais experiência, tínhamos potencial de ter um desempenho muito melhor.

Nenhum jogo, porém, me marcou muito, pois acho que não consegui me envolver ou sentir que eu realmente tivesse sido parte deles.

Depois do Pan, senti que já tinha cumprido meu papel no soft como atleta de seleção. Não foi do jeito que eu esperava e não cheguei nem perto do rendimento que eu queria ter tido, mas tive a sensação de que finalmente o ciclo tinha se fechado.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoTive que correr atrás das provas perdidas e das recuperações na faculdade. Continuei jogando com o time de beisebol de lá e me apaixonei por ele também. O beisebol universitário me surpreendeu de todas as maneiras. Lá eu conheci pessoas que gostavam muito de jogar. Aqueles meninos davam o sangue pelo time. Cultivavam uma amizade invejável e se viravam com o que tinham para aprender as regras e melhorar como atletas. Tínhamos pouco material, era difícil arrumar um técnico e como era complicado ensinar aqueles marmanjos os movimentos corretos.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoApesar de ser a única menina do time que jogava, fui tratada como parte dele e fui incluída em tudo. Era praticamente um menininho e eu achava engraçado escutar o lado masculino da vida. Sou muito grata ao time, que muda muito ao longo dos 6 anos de faculdade, mas que me proporcionou amizades raras e ainda rende encontros que dão aquela vontade de voltar pra faculdade, quando a gente só pensava na próxima Intermed (Campeonato entre faculdades de Medicina) e ia de uniforme pras festas.

Pelo menos uma vez por ano, eu ia jogar algum campeonato Brasileiro ou Taça Brasil com o Gigantes, que depois acabou se juntando com o Gecebs. Mas voltava mais pelas meninas do meu time do que pelo campeonato em si. Era um encontro nostálgico, e jogar os campeonatos era no final, uma diversão.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoFiquei meio desapontada em precisar trocar o número da minha camisa para jogar com o novo time. No começo, jogar com as meninas mais novas era meio estranho porque eu raramente voltava para São Paulo nos finais de semana, então, quase não treinei com elas e a gente não se conhecia direito. Como eu treinava e jogava pela faculdade, ainda conseguia manter um bom rendimento nos campos e, no início, eu ficava com peso na consciência de ser titular porque a maioria das pessoas achava que eu estava totalmente parada. Ouvi vários comentários do tipo: “Gente… o segredo é parar de treinar!” – Mas a verdade é que eu ainda treinava pra caramba.

Depois que as meninas da minha época pararam de jogar, eu também parei. Meu último campeonato brasileiro foi também meu último ano de faculdade. Depois disso, veio a residência médica e a necessidade de trabalhar para conseguir me sustentar e começar a ajudar minha mãe, então, acabei aposentando as chuteiras.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoAinda joguei algumas  vezes com a minha família. Formamos um time misto, e em homenagem à minha batiam o batizamos de “Dona Antonia’s team”. Desenhei uma caricatura dela pra colocar na camiseta, um tio meu de Marília fez os nosso uniformes e minhas tias fizeram chapeuzinhos de crochê iguais os que minha batiam usava para completar o uniforme. Foi demais jogar desse jeito!

A última vez que pisei num campo pra jogar foi no ano passado (2018) para homenagear a nossa querida Sara Silva, mas o soft veio tendo cada vez menos espaço no meu dia a dia.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoApesar de tudo, sou muito grata por ter permanecido nesse esporte. Graças a ele, superei muitos medos e fui desafiada incansavelmente e o tempo todo. Fiz amizades pra vida. Conheci pessoas únicas com quem aprendi muito e por quem tenho grande admiração. Graças a ele, acredito que me tornei uma pessoa mais forte e mais segura. Aprendi a ter disciplina, a respeitar a hierarquia, a superar todos os meus limites e a suportar dores físicas e psicológicas.

Perdi pessoas especiais. Chorei e gritei de alegria e de tristeza. Fiz promessas pra ganhar campeonatos. Levei muita bronca, mas também dei muita, mas muita risada. Subi em árvore, rolei na terra, me machuquei, quebrei algumas partes do meu corpo e juntei umas cicatrizes. Rezei muito pra chover nos finais de semana e também me arrependi quando descobri que existia um tal de “treino na arquibancada”.

Aprendi a trabalhar em equipe e a funcionar como parte de um time, apesar das diferenças. Aprendi a ser persistente e que eu não preciso, nem nunca precisei provar nada pra ninguém, apenas para eu mesma. Aprendi que em esporte de equipe, não existe um culpado, a gente ganha junto e perde junto. Aprendi que treino é treino e jogo é jogo.  Aprendi a respeitar os adversários. Convivi com capitãs que foram além de amigas, exemplo de conduta e líderes sensacionais. Aprendi que se estiver com medo, tem que fingir o contrário e acima de tudo, aprendi a jogar com o coração, a confiar mais em mim mesma, a defender minha camisa com orgulho e a nunca deixar a peteca cair, afinal de contas, assim como na vida, o jogo só acaba quando termina e a gente só comemora quando o juiz dá “guemu setsu”.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoHoje, mesmo longe dos campos, o meio do beisebol e do soft sempre aparece pra falar um “oi”. Tenho colegas de profissão que jogaram comigo, de vez em quando vou assistir um campeonato ou outro quando meus primos estão jogando e todos os finais de ano, me junto com a velha guarda do gigantes pra comemorar outro bonenkai, conversar, dar muita risada, relembrar os bons tempos e manter essa sensação gostosa de “ainda bem que fiz parte disso”.

Projeto Histórias - Patrícia SuginoObrigada a todos os Senseis que passaram pela minha vida. Não mencionei todos, pois foram muitos, mas cada um de vocês contribuiu muito para que eu aprendesse a superar cada desafio. Obrigada as minhas colegas de equipe e as minhas amigas que me acompanharam nessa aventura que foi o Soft. Obrigada ao beisebôru de Marília, que me acolheu quando eu mais precisava. Obrigada a todos os pais e mães que passaram os finais de semana cozinhando para nós, atuando de juiz, torcendo nos jogos e dando todo o apoio que precisávamos. Obrigada Samy pela oportunidade de poder compartilhar a minha história e por último, muito obrigada à minha família, que sempre me apoiou em todos os momentos. Que sempre esteve e continua sempre presente nos bons e nos maus momentos da minha vida. Não sei o que teria sido de mim sem vocês.

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