Patrícia Hamamoto

Evolução
Por Patrícia Hamamoto

“Eu amo o Softbol!”

Projeto Histórias: Patrícia HamamotoEu só posso começar a minha história com essa frase. Tudo começou muito cedo: meu pai e tios jogaram beisebol em Maringá e Terra Boa, no Paraná, meus primos também jogaram e foi muito natural eu ter jogado o esporte. Iniciei no lendário clube Toyota, em 1991. Meu primo já jogava no clube e fomos (eu e minhas irmãs) umas das jogadoras pioneiras de softbol do clube. A história era a clássica dessa época: meu pai era auxiliar técnico, minha mãe ajudava na cozinha-caixa, passávamos o final de semana inteiro no campo. Primeiro no campo nas dependências da fábrica da Toyota em São Bernardo, depois no Parque Ecológico, “Itaqua”, etc. Foram épocas de troca de papéis de cartas entre outras jogadoras, treinos nos finais de semana e “batting” duas vezes na semana, convivência em grupo, lidando com vitórias e derrotas.

Projeto Histórias: Patrícia HamamotoO Clube Toyota, no início da década de 90, era um time forte de beisebol e imbatível em algumas gerações de jogadores. O time de softbol tinha que pensar grande também. Após os primeiros meses de estruturação, conseguimos chamar um nome de peso para ser técnico do novo time: Ademar Kobashi, vulgo Melão, um dos mais brilhantes jogadores em sua geração que estendeu sua fama como técnico. Os treinos eram dinâmicos, naquela época já tínhamos até uma educadora física. Nosso time cresceu e começamos a chegar nas semifinais dos campeonatos. Numa década dominada pelo revolucionário time de Maringá, com Goro Ogata, e Central de Curitiba, com todas as bonitas Watanabes, pude ter o gosto de ser campeã brasileira e levando o troféu de melhor arremessadora.

Projeto Histórias: Patrícia HamamotoEm um dia frio e nublado de agosto de 1994, o invicto e poderoso Maringá perde na semifinal para o Central, em 9 innings. Era a primeira vez em anos que Maringá não chegava à final em qualquer categoria. O recém renomeado time do Blue Jays (após a Toyota precisar dos campos em sua fábrica para usar de estacionamento de carros importados), ganhou de Prudente na outra semifinal, mas não chegou pensando na possibilidade de ganhar a final. Porém o time do Central estava com poucos arremessadores, a Carla Nakashima tinha jogado todos os 9 innings da semi, só tinha mais um. E foi a chance que agarramos: batemos bem e defendemos como nunca. Abrimos uma vantagem de quase 4 pontos até a 3ª entrada, fechando o jogo apenas com 1 de diferença, segurando corredor na terceira base, elas venderam caro a derrota em casa (foi no Campo Iguaçu). Finalmente eu era campeã brasileira, juvenil (sub 19) em 1994, com 15 anos!

Alguns meses mais tarde, encontramos o mesmo Central na semifinal do brasileiro adulto em Maringá. Agora os dois lados tinham todos os arremessadores disponíveis. Num jogo raro sem erros de defesa, ganhamos de 1×0. Conseguimos provar que não foi apenas sorte, tínhamos uma equipe competitiva. Entretanto o favorito Maringá não ia ficar longe do caneco e nos atropelou na final.  Naquele ano, fui convocada pela primeira vez para a seleção nacional. Eu era arremessadora, por obséquio!

Projeto Histórias: Patrícia HamamotoO Campeonato Pan-americano, na Cidade de Guatemala, em dezembro de 1994, que era classificatório para os Jogos Pan-americanos de 1995, foi minha primeira viagem internacional sem meus pais. Os treinos eram puxados, a parte física era a pior. Chegando lá, pudemos ver qual era o nosso nível em relação aos nossos vizinhos. Eram quase 15 países competindo, dividindo espaço numa vila olímpica, fazendo amizades e conhecendo pessoas diferentes com paixão pelo mesmo esporte. Eu tive outra oportunidade em representar o time nacional no Sul-americano Sub16 em 1995, que vencemos a Venezuela na final. Experiências fantásticas e pessoas que, de alguma forma, ainda mantenho contato e muitas lembranças.

Projeto Histórias: Patrícia HamamotoAo chegar na faculdade, eu tive a sorte de estudar onde também pude jogar. Quando eu já estava cansada dos treinos dos times competitivos para os campeonatos brasileiros, eu vivenciei uma outra realidade com o softbol. No universitário, os times são tocados pelos alunos, que se dividem nas responsabilidades em organizar diversas competições. Os Interusps que participei são capítulos felizes na minha vida. Coletividade, longas conversas, competição, e grandes amizades. Jogos incríveis contra a Cris Abe e Raquel Silva (irmã gêmea da querida e saudosa Sara Silva), no clássico “uspiano” FEA x Poli. Meu amor foi tão grande que fiquei mais dois anos como técnica do time, até receber um convite que mudaria a minha vida num jogo da FEA. Ao fim de um jogo em que eu consegui reverter uma decisão errônea do árbitro (por aplicação de regra e não por apreciação), o supervisor e o árbitro principal da partida me perguntaram se eu teria interesse em arbitrar no Pan do Rio (de Janeiro, em 2007). Resolvi me arriscar.

Projeto Histórias: Patrícia HamamotoA arbitragem seria um novo desafio. Estar no jogo de uma perspectiva diferente aumentou a complexidade do esporte. Eu já tinha me arriscado como anotadora, mas estar dentro do jogo, calibrando a atenção e o cansaço, decidindo lances, “taking charge of the game”, é desafiante. A dificuldade me faz continuar, os momentos difíceis me tornam melhor, as amizades que tenho feito pelo mundo, me fazem continuar. A certificação internacional é longa e cansativa: 4 dias de aulas, 2 de jogos e 1 prova de 100 perguntas (aprovação acima de 90). Eu passei e fui para o Pan do Rio. Foi só o começo: depois vieram os “Canada Cups” em 2008, 2011, 2015, Mundial Sub19 na África do Sul, Canadá, Estados Unidos, outro Jogo Pan-americano em 2011 (Guadalajara), Pan-americanos em Dominicana e Colômbia, e o mais importante, o Mundial Adulto em 2016 no Canadá, além de alguns amistosos na Argentina nos últimos meses. Conheci pessoas e locais incríveis, que de vez em quando você está apenas com essas pessoas diferentes num mesmo jogo, num mesmo time.

Projeto Histórias: Patrícia HamamotoEm 2015 resolvi encarar um novo desafio e fui arbitrar (e morar) em Vancouver no Canadá. Tudo isso apenas foi possível porque uma árbitra, que havíamos arbitrado em alguns campeonatos, me recebeu e me introduziu ao Softball Canada. O apoio que recebi do Softball Canada e de muitos outros apenas reforça que o desenvolvimento se faz em conjunto e não sobre a precariedade dos outros. Há mais times na Província de British Columbia que no Brasil, mas ainda está longe do vizinho gigante (EUA). As equipes são clubes que muitas vezes se beneficiam de espaços públicos construídos para manter suas atividades, porém são responsáveis pela manutenção e operacionalização do local. Existem diferentes ligas, com níveis técnicos diferentes. Uma das características que reforça o espírito olímpico é que o Softbol é um esporte praticado em níveis de alto rendimento ao recreativo. Existe jogos para todos. E existe árbitros para todos. Os canadenses começam cedo na arbitragem: em geral quando ainda jogam, estimulados pelos técnicos que entendem que esse conhecimento e a exposição melhora o rendimento dentro de campo, em especial liderança. Participei de algumas clínicas para iniciantes (Level 1), e havia crianças de 11, 12 anos, metade meninas.

Projeto Histórias: Patrícia HamamotoNos últimos anos, de volta ao Brasil, voltei a jogar (um pouco!), a dar cursos e trazer materiais atualizados de arbitragem e regras, revisão do CT, arbitro e até ajudo a CBBS nos projetos e assuntos internacionais. Eu quero que o softbol continue se desenvolvendo. É incrível o quanto já desenvolvemos. Em 1994, nós perdemos todos menos um jogo (contra El Salvador! O técnico salvadorenho, da partida em questão, estava também em Santo Domingo, em 2017, e lembrou desse jogo!). Em 2015 as meninas foram para os Jogos Pan-americanos de Toronto porque se classificaram entre os seis primeiros. Ano passado, ainda que com dificuldades, as meninas ficaram entre os oito primeiros em mais de 16 países. É nítido que a parte técnica da seleção também se especializou, jogadoras foram para o “college” nos EUA, desenvolvemos como esporte. Assim como é incrível a participação de mais de 80 times em Londrina, com os jogos do masculino “A” cada vez mais disputados. No jogo acima de 70 anos, a felicidade daqueles que apenas gostam de bater uma bola arremessada e correr pelas bases. Nas Ladies, que eu me incluo, brincamos novamente, fazendo novas amizades e dando muitas risadas.

Projeto Histórias: Patrícia HamamotoE volto ao ponto que o Softbol é incrível porque é um esporte para todos. Não somente pela diversidade de praticantes, alto rendimento ou recreativos, mas pela diversidade de universos que atinge. O esporte não é formado apenas dos atletas que entram no campo. Grande parte do trabalho em ter um esporte vivo é feito fora de campo: divulgação (Samy, Travinhas, fazendo um trabalho incrível), investimento (seja do governo, de patrocinadores ou a própria família), corpo técnico, anotação, etc. Temos que olhar para as seleções nacionais em participações em competições internacionais, mas devemos também olhar os pequenos, participar e apoiar os torneios para iniciantes (como foi o divertido Camelo Mamãe!), universitários, ladies/old boys, seja ele no RJ, Santa Catarina, Recife, etc.

Projeto Histórias: Patrícia HamamotoTive a sorte e oportunidade de participar do crescimento do esporte como jogadora, um pouco como técnica (fui por dois anos técnica do T-bol, para mim a categoria mais importante), e agora como árbitra, mas o mais importante é continuar a ajudar e se beneficiar do esporte. Seja por saúde (mental e física), por recreação, por ver amigos, por apoiar outras comunidades, etc. O softbol, como qualquer outro esporte e atividade, não tem um fim em si mesmo. É um meio para melhoria da comunidade em que posso atuar, de estar em contato com pessoas diversas pelo mundo, de aprender e para sempre, me desenvolver como pessoa.

Por isso convido a todos a ajudarem o Softbol, seja como técnico, jogadores eventuais, divulgadores, etc!

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