Mary Tanaka

Maria Elisa Tanaka, 32 anos, vivendo na correria insana e gostosa de São Paulo, entre trabalho, casa, família, amigos, descanso, comilanças, diversão, um pouco de estudo e tudo de bom e de perrengue que existe na vida de todos nós. Essa sou eu atualmente. Agora, vou contar um pouco melhor para vocês como o softbol faz parte da minha história.

Foi com 9 anos de idade que comecei a usar o taco e a luva e não parei mais. Troquei de taco, troquei de luva, gastei algumas chuteiras, joguei bastante durante alguns bons anos, em outros menos, já vivi uma pequena parte da minha vida por conta do softbol e agora, depois de uma fase só observando e curtindo de longe e bem pouco, estou voltando a ter mais contato com esse esporte que até hoje é o meu favorito.

O início dessa jornada nos campos de softbol foi em Arujá, no então Blue Jays. Foi essa camisa que vesti durante toda a minha carreira no Brasil e foi com ela que aprendi a amar esse esporte. Dos torneios pelo Brasil desde o Mirim com o Sensei Mitsuo Kirihara até disputar os campeonatos mais importantes do Brasil na categoria adulto sob o comando das cubanas Maritza Soria e Rebeca Collazo, passando pelo Sensei Melão, Sensei Takashi Ihy (in memoriam), Sensei Otsuka e Yoshida e pela Denise Kano, foram muitas horas durante a semana e muitos finais de semana inteiros com esses grandes técnicos que me fizeram uma jogadora de softbol.

Tive o privilégio de jogar com a camisa do Blue Jays, pois foi com ela que ganhei torneios, campeonatos e também destaque no softbol brasileiro. O Blue Jays sempre foi um clube com uma estrutura muito boa, além de termos ótimas atletas, tínhamos o apoio dos pais de todas as atletas do time, o clube sempre nos apoiou, era esse suporte que nos levava “pras cabeças”. Foi por isso, e porque eu jogava com as melhores atletas do Brasil, que toda a minha carreira por aqui foi sempre muito competitiva e muito vitoriosa.

No dia 06 de junho de 2007, vivi um momento de atleta da elite do esporte brasileiro quando vi meu nome na lista de convocadas para os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. Pra falar a verdade, esse “momento atleta” só bateu mesmo na cerimônia de abertura dos Jogos, quando entramos no Maracanã e vimos aquele estádio lotado vibrando com a entrada da delegação da casa. Lembro de estar muito feliz e de ter me divertido horrores com aquele timão de soft. Todo o período preparatório, as seletivas, os cortes, os treinos, toda a pressão, o nervosismo que antecederam a convocação, se transformaram em felicidade pura.

Alguns anos de softbol brasileiro rolaram na minha história, entre torneios, Brasileiros, Taça Brasil, mais uma convocação para a seleção para disputar o Pré-Pan na Venezuela em 2009, em que não conseguimos nos classificar para entrar no Pan de Guadalajara, treinos, treinos e mais treinos, com esse tanto de softbol na vida, meu nível de jogo começou a aumentar e melhorar.

Foi aí que, em 2009, eu recebi uma bolsa integral para estudar e jogar softbol num Junior College de Divisão 1 nos Estados Unidos. Agora vamos para a parte da minha história onde entra o softball.

Depois do Pan de 2007, utilizando o linguajar esportivo, abriu-se a janela para o intercâmbio de atletas brasileiras para o softbol nos Estados Unidos. Em 2009, a Guga, umas das melhores short stop do Brasil estava jogando na Flórida. Jogadora do Gigantes e minha companheira de seleção no Pan do Rio, disse que seu atual técnico, coach Jack Byerley, estava procurando uma outfielder para o time da faculdade.

Fazer uma faculdade, receber uma ajuda de custo, ter uma estrutura impecável e completa para treinar e jogar softball, morar à 30 minutos das praias mais bonitas dos Estados Unidos, parecia um sonho, e foi sem vídeo de habilidades, sem olheiro, somente com a indicação sensacional da Guga e uma prova de inglês trabalhosa para o meu nível de inglês na época, que entrei de cabeça nesse sonho perfeito do softball e vivi isso durante 3 anos.

Treinei como nunca achei que treinaria, e quando digo isso, é porque com o tanto de treino regular que o time tinha, nem mesmo hoje eu acredito que eu já treinei daquele jeito.

A rotina era sempre muito corrida, pois ser student-athlete é dividir a vida de estudante, as horas diárias entre aulas e as atividades da faculdade, com a vida de atleta, cheia de regras, treinos e jogos importantes, e tudo isso durante a época mais animada da vida de qualquer ser humano.

O dia começava bem cedo. Às 5h30 da manhã pulava da cama pois às 6h já teria que estar pronta para correr, ou fazer musculação na faculdade. Eram 30 minutos para tomar um café que me sustentasse durante o treino físico mais pesado do dia, mas que ao mesmo tempo, não me fizesse passar mal entre uma série e outra de tiros de velocidade na subida, ir para a faculdade, passar no vestiário e colocar o uniforme correto. Parece simples, mas essa era uma missão difícil porque acertar a cor da camiseta e a cor do shorts naquela hora da madrugada não é tão fácil quando você está sabendo que vai enfrentar um treino físico de matar. E então, estar em fila para começar o aquecimento para do temido treino físico.

Depois do treino, era continuar correndo, agora de volta para o apartamento para um banho rápido e voltar para a faculdade a tempo de tomar café no horário marcado. O café da manhã com ovos, bacon, panquecas ou waffle, cereal, bagel, cream cheese, uma banana ou maçã, e um scone de blueberry, não me fez sentir saudades do pão francês, bacon é muito mais gostoso.

Alimentada, seguia para as salas de aula, laboratórios, biblioteca, auditórios, ou para onde é que seriam as aulas do dia. Depois de adquirir muito conhecimento, receber lição para fazer, trabalhos para entregar, provas e tudo mais, era hora do almoço na faculdade.

De tarde não tinha tempo para a soneca pós-almoço, era direto para o campo: vestiário, uniforme de treino e material. Os treinos envolviam muitos fundamentos, exercícios bem básicos que havia feito somente quando comecei a jogar no Brasil, mas que fazem toda a diferença para uma performance boa. O swing era dividido em partes, trabalhado do início até a finalização após a rebatida, muito trabalho com suporte para rebater, muita repetição, e também funcionava dessa forma na parte de defesa. Utilizávamos muito as mãos, sem a luva, para pegar a bola, exercícios de fundamento com os joelhos no chão para acompanhá-la até entrar na luva, e arremessávamos em dias alternados para evitar lesões.

Os treinos, tanto de defesa, quanto de ataque, eram sempre focados e com objetivo de fazer certa jogada com excelência, seja uma ponte do outfielder para o home plate ou uma jogada de cobertura de base em situação de bunt, seja para conseguir uma rebatida simples para impulsionar a corredora da segunda base ou uma rebatida fly no outfilder para impulsionar a corredora da terceira base em situação de um ou nenhum eliminado.

Os treinos eram muito intensos e exigiam muito preparo físico e concentração, mas era essa carga de intensidade que fazia com que na hora do jogo, tudo o que foi treinado saísse naturalmente.

Eu fazia muito treino extra, marcava horário com os coaches para treinar o que achava que não estava bom ou o que não estava funcionando, e foram nesses 3 anos que eu mais corri para esfriar a cabeça. Eram umas boas milhas na rua e música no fone para limpar a cabeça, hora por conta do tanto de treino e da pressão do softball, algumas vezes por conta dos dramas no time, porque afinal era um time de meninas de 18-20 anos que fazia tudo junto: estudava, morava, treinava, folgava, comia, jogava e se divertia. Era muita juventude feminina junta por muito tempo, que nem todos os treinos físicos e corridas às 6AM bastavam para tanto mimimi.

Meu desempenho em campo foi parar nas estrelas! Eu enxergava a bola como um melão, e não tinha arremesso que eu não conseguisse dar uma bela porrada. Tive 0.377 de Batting AVG em 138 at bats no meu primeiro ano e, 0.416 AVG no segundo em 154 aparições na batter’s box. Foram temporadas dos sonhos, teve hit, ombro deslocado, boca arrebentada no muro tentando roubar um HR, uns HRs rebatidos e um deles tão inesquecível que vou tentar descrever: era noite do nosso primeiro jogo da temporada em casa, arquibancada lotada, a cidade de Niceville em peso na arquibancada porque estávamos com um time muito bom e a temporada prometia, todos atletas dos outros esportes da faculdade estavam assistindo, coaches, diretores, pais e famílias das demais atletas e PEI!

Bati um HR que foi longe, mas bem longe mesmo, não sei onde a bola foi parar, mas ela passou o muro, atravessou a rua que passava por trás do campo, e foi parar nas árvores que tinham por lá, a bola sumiu nas estrelas! Era meu primeiro jogo de temporada nos Estados Unidos, e lembro até hoje que ao final do jogo, o diretor da atlética, Mr. Englett, me cumprimentou e disse que foi o HR mais longe que ele já tinha visto no campo da faculdade.

Durante meus anos de softball, também pude jogar pela mesma faculdade que meu irmão. Em 2011, ele veio para a Flórida para fazer parte da Raidernation e jogar baseball. Em seguida, se transferiu para uma faculdade no Alabama, se formou com a bolsa de estudos do baseball e hoje trabalha e mora em Palm Harbour com a esposa, que também foi atleta na faculdade. A Shelby, minha cunhada, fez parte da natação da University of Alabama.

Minhas histórias com o softbol são inúmeras, vou confessar que tenho uma péssima memória para guardar lances de jogos, placares, jogadas espetaculares, datas e locais onde aconteceram. O softbol faz parte de minha vida porque ele vem junto com as pessoas. Não tenho como agradecer aos meus pais pelo apoio que eles me deram desde o início. Tenho muita sorte e sei bem o valor que é ter pais que me apoiaram sempre, me incentivaram, me carregavam para todos os cantos do Brasil e do mundo para jogar e treinar, sem NUNCA terem me questionado porque eu não bati em tal jogo, ou como eu errei em tal lance.

É muita sorte a minha ter mãe e pai que gostam e entendem do jogo. Meus pais são a chave do meu sucesso com o softbol e são meus maiores fãs. Lembro de quando eles me contavam que choravam de emoção ao ouvir minha voz nas transmissões das entrevistas pós-jogo direto dos Estados Unidos. Emoção pura porque eles não conseguiam entender quase nada de inglês.

O softbol também me trouxe as meninas do Blue Jays, amigas com quem dividi minhas histórias na infância e adolescência. Desde as mais velhas que me acolheram quando cheguei para jogar com 9 anos, até as mais novinhas que jogaram comigo no adulto.

Não vou esquecer nunca da seleção do Pan do Rio, tanto as 17 convocadas, quanto todas as atletas que estavam na preparação e treinaram comigo, muitas me deram muita força, me inspiraram a não desistir e me ensinaram como ter garra, ser durona, e jogar meu melhor. Lembro com muito carinho de todas e principalmente do grupo das “gaiás” que éramos.

Minhas histórias americanas de softball são cheias de Gugas, Reginas, e Portis! Guga, vou falar direto para você: Obrigada por fazer parte da minha história com o softbol, por ter me indicado para o coach e principalmente pela atleta que foi em Niceville, porque a faculdade só me deu a bolsa e a oportunidade porque você representou muito bem dentro de campo, na faculdade e fora de campo também. Obrigada por trazer o softball para a minha vida e por ter sido uma companheira de time e de seleção sensacional e principalmente por ser uma amiga com quem sei que posso contar.

As Reginas da minha história foram a Chie Someya quem me deu. No meu primeiro ano nos Estados Unidos dividi o apartamento com a Chie, na época, uma das melhores jogadoras do Brasil, 4 anos mais nova que eu, quietinha, do interior, bem menininha de Atibaia. Era só minha roommate e companheira de time quando cheguei nos Estados Unidos, hoje é uma das pessoas em quem mais confio, uma pessoa com quem eu realmente me preocupo de verdade, que quero o bem sempre, minha irmã mais nova destrambelhada, exemplo de atleta, de humildade, honestidade, de garra, de raça com quem eu dividi a vida, não só o apartamento.

Já as Portis, elas entraram na minha história do softball no dia 31 de Dezembro de 2010, véspera de Ano Novo nos Estados Unidos. A Rose Portiolli chegou em grande estilo: quase cancelando a balada de Ano Novo porque 17 anos, nem entrar na balada ela podia. Desde então, dividi as melhores histórias e algumas ruins com ela. Mais nova do que a Chie, a Rose é 7 anos mais nova do que eu, mas até hoje divido com ela as minhas histórias mais podres, meus problemas mais cabeludos, e é com ela que tenho os momentos, hoje raros, mais gostosos com conversas infinitas, pensamentos e reflexões mais profundas e as gargalhadas mais sinceras. Ah sim! Fomos na balada de Ano Novo, eu com meu passaporte e ela com meu RG, e deu tudo certo, porque afinal dizem que japonês é tudo igual, para quem conhece a gente, sabe que somos parecidíssimas. Happy New Year!

O softbol me trouxe oportunidades únicas e inesquecíveis, e carrego também uma parte de cada pessoa sensacional que passou pela minha história com o esporte.

O melhor desse esporte é que é para todo mundo, não importa se você é alto, baixo, forte, rápido, o softbol é para todas as pessoas. Obrigada pela oportunidade de dividir um pouco da minha história com vocês, e que essas histórias do Softbol Brasil nunca tenham fim. Até o próximo capítulo.

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