Laila Kaori Kosaka

Perseverança

Depois de todas as histórias emocionantes e inspiradoras que passaram por aqui, contar um pouco sobre a minha história é, no mínimo, desafiador e quem me conhece sabe muito bem disso (a desenvoltura aqui passa longe!).

Meu nome é Laila Kaori Kosaka, tenho 30 anos e parei de jogar soft aos 20 e poucos! Porém, esse projeto tem um propósito tão bacana que resolvi abrir uma exceção e contar um pouco sobre a minha trajetória nesse esporte!

A primeira vez que pisei num campo de soft foi aos 8 anos, no Nikkey Santo Amaro. Sim, aquele clube lá onde Judas perdeu as botas! Lembro que quando cheguei  e olhei aquela floresta toda em volta dos campos, as mães no baiten (cozinha) preparando o almoço e toda aquela gente treinando, logo eu me senti em casa. Naquela época tinham praticamente todas as categorias, desde o mirim até o adulto, no soft e no beisebol, tinha até o time das mães. O clube vivia cheio, era lindo! E então logo me botaram pra rebater umas bolinhas, fazer um catch ball e dali em diante, tchau finais de semana na praia, no shopping ou em qualquer outro lugar que não fosse num campo de soft. Mas isso nunca foi problema! Foi no campo que fiz as melhores amizades e vivi alguns dos melhores momentos da vida. Como eu amava essa loucura? Quantos dias? Quantas horas eu dediquei a esse esporte? Não só eu, mas meus pais, que me levavam para os treinos todo final de semana, para os campeonatos em outros estados e estavam sempre lá, torcendo e sofrendo por nós a cada jogada. Que sorte a minha ter uma família assim! Que sorte a minha crescer em meio a tantas pessoas queridas e num clube tão acolhedor.

Bem, no Nikkey a gente não tinha muita escolha, tinha que jogar onde precisava, sem essa de exclusividade de posição. Adorava jogar de shortstop e catcher, mas por ironia do destino, foi ali no centro do campo, cara a cara com o rebatedor, que eu acabei me encontrando. Não me recordo bem quando foi que comecei a arremessar, sei que foi ainda no “mirinzinho”, mas era sempre assim, revezando entre os arremessos e alguma outra posição. Além dos finais de semana, alguns dias depois das aulas, meu pai me levava para fazer treinos especiais de arremesso no CT Aeroporto e com a Maritza (que me ensinou praticamente tudo o que sei até hoje sobre arremesso, obrigada “muchacha”!). Tenho muitas lembranças boas do tempo que vesti a camisa do Nikkey. Conquistamos muitas coisas e do que eu mais me orgulho, é de ter feito parte de um time, que não era reconhecido por ser sempre campeão, mas sim, por ser um time “raçudo” e cheio de vontade de jogar. Aprendi muito com as meninas com quem joguei lá e tenho uma admiração muito grande por todos os senseis que tive a honra de ter.

Eu sempre digo que existem pessoas que nascem com um dom e outras que dependem do esforço e dedicação para alcançar seus objetivos. Até hoje não sei bem qual é o meu dom, mas sempre me esforcei muito pra fazer tudo da melhor forma possível, não por querer ser a melhor, mas porque gosto das coisas bem feitas. Então, quando fui convocada pela primeira vez pra participar da seleção da Capital (sim, ainda existiam os campeonatos regionais naquela época!) imagina a minha felicidade. E o meu medo também, pois fui convocada para a categoria acima da minha junto com mais 2 ou 3 meninas da minha idade. Eram jogadoras mais experientes, mais fortes, mais rápidas, um sensei diferente, mais rígido e os treinos muito mais puxados do que estava acostumada. No fim deu tudo certo e foi uma experiência muito boa.

Em 2002 veio à primeira convocação para a seleção brasileira para participar do Sul-americano no Equador. Porém, naquele ano, meu pai, que vinha lutando contra um câncer no cérebro, não estava muito bem. Minha mãe trabalhava horas e horas por dia pra dar conta da casa, da minha escola e das despesas com exames e remédios pro meu pai. Foi uma época bem tumultuada. Eu estudava longe, ajudava em casa como podia, fazia companhia pra ele e ainda conseguia um tempo para treinar nos fins de semana. Ele sempre gostou de me acompanhar nos treinos e nos jogos e continuar me esforçando no campo definitivamente era uma coisa da qual ele se orgulhava. Foi o que eu fiz. Chegou então o dia da viagem e já no aeroporto lembro de ouvir, sem querer, um dos dirigentes falando pra minha mãe que se algo acontecesse enquanto estivéssemos lá, ele voltaria comigo para o Brasil. Pouca gente sabe disso, mas quase desisti de ir, senti um aperto no coração e não ia me perdoar se eu não estivesse por perto caso acontecesse algo. Mas respirei fundo, sabia que ele me esperaria. Embarquei, concentrei toda a minha angústia nos jogos e no fim deu tudo certo, nos divertimos e fomos campeãs. Voltamos para o Brasil e 2 dias depois meu pai faleceu. Mas eu pude ver a carinha dele quando contei da viagem, dos jogos e que fomos campeãs. Ele me esperou para que eu pudesse dar esse último orgulho pra ele e me despedir com o coração mais leve e preparado. Perder alguém assim tão querido nunca é fácil, mas ele me preparou pra vida melhor do que ninguém!

No ano seguinte fui convocada novamente, dessa vez para ir pro Perú, no meu segundo ano na categoria júnior e com as meninas que eu já estava acostumada a jogar. Foi a melhor seleção que já participei, éramos todas muito amigas, os treinos muito alegres e a convivência com os senseis e os pais que estavam sempre nos acompanhando, era muito boa. O resultado disso tudo refletiu no campo. Jogamos super bem, nos divertimos e fomos campeãs novamente batendo a Argentina na final por 7×1. Acho que em toda a minha vida de soft, aquele foi, sem dúvidas, meu melhor campeonato. Saí de lá com mais um título vestindo a camisa do meu país, com amigas por quem ainda tenho muito carinho e o coração cheio de alegria. Sei que meu pai estaria orgulhoso também e agradeço muito por ele ter me ensinado a nunca desistir.

Em 2004 muitas meninas pararam de jogar. Nessa época, o Nikkey já não tinha mais time na categoria juvenil e lembro de participar de um ou dois campeonatos por outros times para não parar de jogar também. Confesso que não me senti muito à vontade, apesar de gostar muito das meninas com quem joguei, vestir uma camisa que não fosse a do meu time do coração era um bocado estranho. Foram poucos os times que sobreviveram, restaram alguns em SP e os mais tradicionais do interior ou do Paraná, além de ter que juntar várias categorias para conseguir montar um time completo, bem diferente daquela época que comecei a jogar. Nessa fase da vida (entre os 16 e os 20 anos) tudo é muito complicado, é uma fase onde a maioria das meninas está prestes a fazer vestibular, já estão na faculdade, namorando, cada uma tomando um rumo diferente e por isso a quantidade de times era pouca. Triste, mas compreensível quando sabemos que aqui no Brasil o soft ainda é um hobby e que quase 100% das atletas precisam se dividir entre as responsabilidades com trabalho, estudo e vida social e os treinos no fim de semana.

Então, em 2005 começou a preparação para o Pan-americano de 2007 que aconteceria no Rio de Janeiro. Desde o início o discurso era de que dessa vez tudo seria feito da forma correta, sem politicagem, sem privilégios e com total suporte para as jogadoras que estariam ali treinando e disputando uma vaga entre as 17 meninas que iriam representar o Brasil. Nessa época eu estava focada no vestibular, mas resolvi tentar uma vaga no time. Me organizei com os estudos e logo recomecei os treinos no CT Aeroporto depois das aulas para não perder o ritmo.  A seletiva começou com mais de 60 meninas de todo o Brasil e pouco a pouco essa quantidade foi diminuindo, os treinos foram ficando mais frequentes, mais puxados e alguns conflitos começaram a acontecer.

Chegou 2006 e com ele, minha vaga na faculdade de arquitetura e urbanismo, mas também uma vaga entre as 22 jogadoras que continuariam a preparação pro Pan 2007. Era muita coisa para lidar ao mesmo tempo, encarar uma faculdade de arquitetura sem ter os finais de semana livres para fazer os milhares de trabalho não foi fácil, tive que abrir mão de algumas aulas para poder treinar durante a semana, minhas amigas me ajudavam com os trabalhos em grupo e até assinavam a lista de chamada para eu não “bombar” por falta. Esse ano foi bem puxado, acho que nunca me esforcei tanto em busca de um sonho. Além de mim, tinham as meninas que vinham do interior e tinham que viajar horas para treinar no final de semana, outras que já trabalhavam e dedicavam os únicos dias de descanso aos treinos. Vi tanta gente se empenhando e admiro muito elas por isso. Não posso reclamar do suporte que nos deram durante esses anos, os treinos no CT Yakult, as parcerias com academias, fisioterapeutas, psicólogos e até exames físicos na Unifesp. Tudo parecia seguir pelo caminho certo.

E então, no começo de 2007, depois de uma clínica com um técnico japonês aqui no Brasil, veio a primeira grande frustração. Ele levaria duas arremessadoras para um treinamento especial lá no Japão. Nós éramos quatro e a comissão técnica decidiu que eu e a Chie (a caçulinha guerreira e batalhadora da história anterior!) ficaríamos de fora! Apesar de entender a importância dessa oportunidade para o time, senti como se fosse uma lista de corte antecipada. Fiquei muito chateada, quase desisti de tudo, não tinha como competir de igual pra igual com as duas meninas que foram fazer o treinamento lá. E quando elas voltaram isso ficou nítido, como foi grande a evolução delas! Mas decidi seguir em frente e mostrar que mesmo sem esse treinamento eu seria capaz de fazer parte do time, afinal, seriam quatro arremessadoras convocadas e além de nós ainda tinham duas que jogavam no Japão e que também seriam avaliadas antes da convocação final, segundo a comissão técnica. Eram arremessadoras muito boas, nas quais me inspirei à vida toda, mas não perdi a esperança.

Alguns meses antes do Pan nos inscreveram em um torneio na Argentina, como forma de preparação e para pegarmos ritmo de jogo. Fui pra lá com sangue nos olhos, motivada, mesmo sabendo que o meu nível técnico não estava assim tão bom. Logo nos primeiros jogos, não sei se por nervosismo ou o peso da responsabilidade, estavam todas inseguras, cometendo erros que não eram normais e ao fim do primeiro dia, um clima muito estranho tomou conta do time. Perdemos muitos jogos e durante todo o torneio teve muito choro pós-jogo, muitas conversas entre o time, reflexões, mas no geral foi tudo um desastre. Não consegui jogar bem e minhas tentativas de animar as meninas que também não estavam bem foram em vão. Eu tentei, fiz tudo o que eu podia naquele momento.

Apesar de tudo, esse campeonato serviu para unir ainda mais o time e isso foi o mais doloroso quando, um mês antes do Pan, saiu à última lista de corte. Tive pesadelos com essa lista à semana toda e no dia em que ela foi divulgada, posso dizer com toda certeza, que foi um dos piores dias da minha vida. Quando abri a página da convocação e não vi meu nome, foi como se o tempo tivesse parado. Até hoje não sei dizer qual foi o sentimento naquela hora, foi uma mistura de tanta coisa ruim tomando conta de mim, de derrota, de tempo perdido, de raiva, incapacidade, mas ao mesmo tempo de alegria pelas meninas que conseguiram a tão sonhada vaga no time, afinal, foram quase dois anos convivendo com elas todo final de semana que algumas eram como irmãs. Naquele dia cheguei a odiar o soft por algumas horas, jurei pra mim mesma que nunca mais pisaria num campo e então o telefone tocou. Era a Marcinha, nossa “captain”, a mais palhaça e mãezona do time. Ela me ligou e disse coisas muito bonitas, me lembrou de toda a trajetória até lá e que não era pra eu ficar triste e sim orgulhosa de mim mesma. Aquele telefonema acalmou meu coração!

Entrar em campo representando o Brasil era uma coisa que eu queria muito, mas muito mesmo, ainda mais num campeonato tão importante em casa. Fiquei um tempo sem poder ouvir o hino nacional e não chorar de tristeza, mas decidi que isso não estragaria o meu amor pelo soft. Levantei a cabeça e decidi que mesmo não fazendo mais parte da equipe, eu iria pro RJ, torcer e gritar pelas meninas. Nós nos organizamos em grupos, minha mãe arrumou casa e ônibus pra todos que queriam ir lá torcer e qual foi à surpresa quando chegamos lá. Uma estrutura mal montada, um campo alagado (choveu muito nos dias anteriores e o campo foi construído numa região de pântano), jogos adiados, foi um tanto decepcionante. Apesar disso nada tirou a emoção de vê-las! O Brasil perdeu quase todos os jogos, mas as meninas deram o sangue e isso pra mim já bastava! Fiquei orgulhosa delas.

Passado todo o tumulto dos jogos, fiquei sabendo de coisas que aconteceram nos bastidores durante toda a preparação pro Pan que me decepcionaram muito. Toda aquela promessa de sem politicagem, sem privilégios e que tudo seria avaliado de forma justa e correta viraram pó em segundos e então perdi a fé nas pessoas em quem decidi confiar e no esporte que tanto amei. Por muito tempo carreguei essa mágoa comigo e essa frustração me custou alguns problemas de tireoide e umas sessões de terapia, mas nada que me impedisse de continuar perseguindo meus sonhos.

Não tive mais vontade de jogar soft depois disso, precisava correr atrás de tudo aquilo que tinha deixado de lado e ir em busca de novos sonhos. Mudei minhas prioridades e cresci muito como pessoa. Aprendi a sempre ver o lado bom das coisas e isso me transformou! Nessa caminhada conheci pessoas muito boas, tive o apoio de muita gente querida, aprendi valorizar o tempo e hoje posso dizer que não guardo mágoas nem rancor de nada nem ninguém e que hoje sou uma pessoa mais forte e determinada. Até me arrisquei a entrar em campo de novo alguns anos atrás pelo Anhanguera, que na verdade era um “catadão” de meninas de vários times que pararam de jogar a muito tempo, mas que nunca deixaram de amar o soft. Foi ótimo sentir de novo aquele frio na barriga antes dos jogos e dar uns “sanshins” nas meninas novinhas.

O softbol me trouxe as melhores coisas da vida! Os princípios que levo comigo sempre, como respeito e gratidão por aqueles que me ensinaram a ser uma atleta e uma pessoa melhor, as amizades que cultivo com carinho até hoje e o amor da minha vida, que conheci dentro do campo, são as melhores heranças dessa minha caminhada!

Ainda amo esse esporte e tenho esperanças de que um dia ele cresça e seja mais reconhecido aqui no Brasil, sei que tem muita gente batalhando por isso e fico muito feliz! Sinto uma alegria muito grande quando vejo as veteranas ainda em ação, incentivando e ensinando essa nova geração! Muitas portas se abriram e os brasileiros estão mostrando que além do esforço, também têm muito talento. Na minha época, a única chance de viver desse esporte, era indo para o Japão trabalhar nas empresas que tinham time, coisa que eu, particularmente, nunca tive vontade, mas hoje, muitas jogadoras conseguem bolsas de estudo nos Estados Unidos e isso é muito legal. O esporte em geral ajuda a melhorar o mundo e definitivamente ajuda a formar pessoas melhores. Espero que a minha história ajude vocês a verem que sempre temos coisas boas a aprender e a conquistar mesmo que seja por caminhos difíceis e que desistir nunca é opção! Vale a pena ir até o fim!

(fotos: arquivo pessoal da atleta)

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