Karina Hatano

E quando as luzes do estádio se apagam…

Projeto Histórias - Karina Hatano (Especial dia dos Pais)Este depoimento traz a história de alguém comum como você meu leitor, que fez do softbol o maior livro aprendido para a vida, e não se trata da melhor jogadora da seleção brasileira de softbol, mas sim, de alguém que entende o seu sentimento de empatia e paixão inexplicável por este esporte, alguém que já teve seus momentos de glória em campo, que já chorou em campo de alegria e tristeza, e confesso que às vezes não soube perder, mas tive que engolir para conseguir levantar e encarar o próximo jogo. Mas desta vez o sentimento é o da filha que perdeu seu pai, que viu seu maior torcedor deixar as arquibancadas para torcer nas nuvens lá no céu.

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Projeto Histórias - Karina Hatano (Especial dia dos Pais)Talvez seja clichê dizer que o Softbol tenha um significado maior do que outros esportes, talvez seja comum dizer que jogar me trouxe mais do que amigos, mas com certeza dizer que a saudade que sinto do responsável por tudo isto, não chega nem perto de qualquer sensação que o softbol me trouxe, nem as boas e nem as ruins.

É também certo, dizer que a minha vida é o resultado de um jogo acirrado, na prorrogação, corredores em base, oscilando entre a desvantagem, crescendo no peito uma coragem herdada, no rosto uma alegria congênita, arquibancada vazia, com um ou outro nela, mas que aos poucos foi enchendo para assistir o jogo, um jogaço até o último “OUT”.

Projeto Histórias - Karina Hatano (Especial dia dos Pais)O softbol, e o beisebol também, é para mim um esporte ancestral, pois veio do meu “catcher-avô”, da minha avó que fazia o “obentô”(marmita), meu pai Yukio Hatano, filho de imigrante japonês, de baixa condição financeira, nascido na cidade de Promissão, no interior de São Paulo, e por almejar e acreditar que podia conquistar algo maior, saiu de casa cedo para estudar e trabalhar. Foi o primeiro da família a ingressar na universidade, e com muita persistência e garra passou em Medicina, e dentre as que foi aprovado, escolheu a faculdade que amou até seu último dia de vida, a Medicina ABC, na qual fundou o time de beisebol para jogar a Intermed.

Projeto Histórias - Karina Hatano (Especial dia dos Pais)O começo da minha história foi aos 11anos, como não lembrar daquela cena, uma menina tímida, de mãos dadas com seu pai, atrás dele morrendo de vergonha das outras meninas e do técnico, naquela noite no São Bernardo Beisebol Clube (SBBC). Incentivada, para não dizer insistentemente incentivada, pelo meu pai tive que ir aos treinos por semanas.

Projeto Histórias - Karina Hatano (Especial dia dos Pais)Sabe quando você ganha uma escova de dentes do seu dentista? Aquela sensação de “Ai que legal, era exatamente o que eu queria, só que não, obrigada!”, pois é, foi a minha ao ganhar uma chuteira e uma luva naquele início. Pensei: “Poxa, meu pai gastou um dinheiro para me agradar, então vou jogar só até desgastar a chuteira e a luva para ele não se chatear comigo”. Quando dizem que softbol é complicado é porque ele realmente é! Aprende-se a amar o esporte, o seu time, a sua nova família antes mesmo de entender todas as regras do jogo. Ah, e claro, minha luva dura até hoje para minha felicidade.

Lição número 1: Cuide da sua luva – ela te trará eternas lembranças.

Projeto Histórias - Karina Hatano (Especial dia dos Pais)Era uma noite fria e escura, possivelmente um treino de terça-feira, enquanto corríamos no aquecimento antes de iniciarmos os treinos de rebatidas, duas meninas do meu time conversavam que gostariam de ser jogadoras de softbol profissional. Ao ouvir isso, eu com cerca de 13 anos, não fez sentido para mim levar o softbol como profissão, entretanto, fez total sentido que eu levaria o softbol para a minha vida pessoal e profissional, seja ela qual eu escolhesse.

Projeto Histórias - Karina Hatano (Especial dia dos Pais)Penso que você leitor, como eu, experimentou o real sentido de família neste esporte, se ainda não sentiu, acredite, pode apostar que na hora que você precisar, eles estarão lá com você! Além de fortalecer os laços dos Hatano’s, afinal meus pais e meu irmão Dalton Hatano, sempre estiveram por perto, unidos, amigos, companheiros e confidentes. Imagine então como uma nova família de coração, aquela que escolhemos acolher e ser acolhidos, não me proporcionou.

O softbol nos ensina a ter amor próprio, autoconfiança, que pessoas vem e vão, mas só os verdadeiros ficam. Claro, que houve momentos tristes, afinal o campo de softbol é o treinamento para a vida, assim como lidar com a derrota, a rejeição e até mesmo não entender o porque algumas pessoas propositalmente desejam te atingir de alguma forma. Quer saber?

Foi a lição número 2- como lidar com os “dead balls” (bolas que atingem o rebatedor, intencionalmente ou não).

Projeto Histórias - Karina Hatano (Especial dia dos Pais)Aos 15 anos, transferi para o Nippon Blue Jays, enquanto meu pai, como desde sempre, continuava ajudando o SBBC voluntariamente, desta vez como presidente do São Bernardo Beisebol Clube. Meus pais tinham imenso empenho com o clube, ambos colocavam a mão na massa para fazer o melhor, porque?

Lição número 3: Uma vez que você rebate um “hit” (rebatida boa) você sempre vai querer mais, é a paixão pelo esporte.

Mas, além disso, é porque meus pais enxergavam e queriam proporcionar às pessoas, o crescimento pessoal que o softbol trouxe para mim, e o beisebol para meu irmão. Lembra que eu era a menina tímida, toda envergonhada?!

Projeto Histórias - Karina Hatano (Especial dia dos Pais)-Pai, passei em medicina! Me lembro do choro do meu pai ao telefone e o orgulho de eu ser Medicina Mogi! Meu pai sempre disse para aproveitar aquele período, que seria o melhor da minha vida! E não é que ele tinha razão mais uma vez? Lá joguei beisebol entre os homens, o que para mim foi uma grande experiência, nada intimidador para quem sempre foi ensinada a ser independente, aprender a trocar pneu de carro e carregar botijão de gás. Co-fundei e organizei o primeiro e único campeonato de beisebol intermedicina, o MedLeague, e claro, sempre com a participação dos meus pais. Alías, quem era a universitária que sempre queria dividir as alegrias com o pai nos jogos de medicina? Eu!

Projeto Histórias - Karina Hatano (Especial dia dos Pais)Compartilhar a alegria deste momento com ele foi algo incrível! Jogar com o coração, com pessoas que não conheciam o esporte começando “do zero” na faculdade, evoluindo tecnicamente e, assim como meu pai, para mim era admirável dedicarem-se aos treinos e torneios. Me deixava e ainda deixa fascinada, motivada! Na faculdade conquistei muitos títulos com minha família beisebol Med Mogi, sendo o principal sermos Campeões da Pré-Intermed, e também vivi muitos momentos de alegria e amizade com o Softbol Med Mogi.

Projeto Histórias - Karina Hatano (Especial dia dos Pais)A decisão de fazer medicina foi mais uma vez, insistentemente incentivada pelo meu pai, que dizia que não é que eu não queria fazer medicina, mas que eu tinha medo de não passar, assim como tinha receio de arremessar bolas retas para boas rebatedoras, e muitas vezes acabava deixando andar (conquistar a base por 4 bolas ruins).

Lição número 4: Um jeito de um pitcher não deixar um rebatedor bater é deixar ele andar, porém as consequências de ter um corredor pode ser tomar o ponto. Então, acredite em seu potencial, enfrente, pois você tem um time inteiro para o apoiar.

A escolha para a Medicina Esportiva teve total apoio do meu pai e, com todo respeito às outras, mas eu só queria passar na UNIFESP, o que não aconteceu naquele ano. Meu catcher-avô costumava dizer que o jogo só começa na última entrada e com “two out” (2 eliminados), e que o softbol/beisebol era o único jogo que tudo podia acontecer, e deveríamos ir até o fim.

Lição número 5: Esperança! Acreditar até o final! O vento pode mudar ao nosso favor!

Projeto Histórias - Karina Hatano (Especial dia dos Pais)Naquele mesmo ano de 2010, fui aprovada na residência médica de pediatria na tão amada faculdade do meu pai. Porém, também fui aprovada para a Força Aérea Brasileira – Aeronáutica, e ficou a dúvida, o que escolher? Mais uma vez meu sábio pai, mesmo orgulhoso de eu poder ingressar na sua faculdade me disse: “Residência Médica tem um monte e todo ano, mas forças armadas só tem 3 e o momento é agora”.

Lição número 6: Confie em você mesma e jogue sua melhor bola!

Projeto Histórias - Karina Hatano (Especial dia dos Pais)Assim virei Tenente Médica da Aeronáutica, e porque quis contar esta parte da história para vocês? Pois, neste ano até fazer uma Pós Graduação de Medicina Esportiva, meu pai fez comigo só para me incentivar! Que paizão eu tenho, não? E após o período da faculdade jogando o beisebol entre os homens, aprendendo sobre este esporte e levando os ensinamentos para a vida também, voltei ao mundo do softbol, e desta vez no Softbol Misto e Amador. Outras categorias deste esporte, no qual jogamos por diversão, independente de resultado ou performance.

Projeto Histórias - Karina Hatano (Especial dia dos Pais)Agora sim, Medicina Esportiva da UNIFESP, ingressei no Softbol Universitário, e novamente pude sentir aquele friozinho na barriga de competição, rivalidade. Fui conhecendo novas pessoas, aumentando minha família, e me tornei uma Paulinasty! Joguei pela UNIFESP durante toda minha residência médica e mestrado. E já preceptora da UNIFESP, continuei a prática do esporte pelo CooperCotia e Medicina USP.

A trajetória até aquele momento criou em mim o amor e a dedicação à minha profissão, Medicina Esportiva, e meu diferencial era compreender a motivação e o coração dos atletas, técnicos e árbitros. Enfim, todos envolvidos com o esportes. E, desta forma, minha vida seguia abençoada como médica da seleção brasileira de natação e outros cargos. Até que as luzes do campo se apagaram.

Projeto Histórias - Karina Hatano (Especial dia dos Pais)O aceno final de despedida do meu porto seguro, melhor amigo, meu pai. O calor do corpo e do coração se deu lugar ao frio da partida. Surgiram as dúvidas, a insegurança, a tristeza, o vazio e a saudade. Aquela sensação de estar sozinho em meio à uma multidão.

O softbol é a tela branca para nós artistas do esporte, pincelando nossas habilidades estratégicas e atléticas, assim como nos deixa livre para criar e desenvolver o melhor ao mesmo tempo que se aprende algumas lições:

Projeto Histórias - Karina Hatano (Especial dia dos Pais)Não se trata apenas de 9 jogadoras, mas de um jogo complexo entre saber arremessar, correr, rebater e ainda, que a partida vá pra prorrogação e penalidades, ele sempre tem um fim. Por isso, cada bola seja arremessada com sua alma e alegria, que cada “swing” faça uso de estratégia e do controle da razão e emoção, que os ralados dos “peixinhos” e “carrinhos” se cicatrizam, e que o respeito ao jogo prevaleça aos adversários, técnicos, árbitros e todos colaboradores, penso que assim como uma força maior está acima de nós colocando “regras na vida”, eles estão cumprindo seu papel e da melhor forma que podem, fazendo seu melhor, assim como você e eu!

As oportunidades para sermos atléticas, também é a tela branca registrando a arte, criação e o melhor que pudemos dar pelo esporte. Me refiro agora, meu leitor, sobre as homenagens prestadas arremesso inicial em homenagem aos que foram, e eu que tantas bolas arremessei me senti sozinha. As regras da vida são claras, mesmas valem para o jogo: Somos mais fortes do que imaginamos e quem menos você espera se torna alguém especial na sua vida.

Projeto Histórias - Karina Hatano (Especial dia dos Pais)Até que, no Pré Pan-Americano com a Seleção Brasileira de Softbol, não somente pelas atletas, pelo momento vivido, pela raça e coração em cada jogo, mas principalmente, por ver os pais que acompanhavam a seleção, fazendo mais do que podiam e o melhor não somente pelas suas filhas, mas por todas, escolhendo estarem ali, me fizeram lembrar tudo que meu pai quis me ensinar com o Softbol, e assim, voltei a ver Cores!

As luzes do campo reacendem, volto a sentir a sensação de pisar na terra com a chuteira, sentir a brisa no meu rosto, o sol escaldante que faz suar por baixo do boné. Eu olho pra cima, e vejo a nuvem mais perto. Meu pai, meu ídolo, está lá torcendo por mim!

Projeto Histórias - Karina Hatano (Especial dia dos Pais)Às filhas e filhos que hoje celebram o mês em homenagem aos pais, beijem e abracem forte sentindo o calor que eu queria sentir do meu pai, e àqueles que também estão fisicamente distante, como eu estou, olhe para o céu, feche os olhos, chorem, sorriam, relembrem os momentos juntos, tenha gratidão, e VIVA POR ELE, acima de tudo VIVA POR VOCÊ, que é a continuidade dessa história aqui escrita!

Última lição: Seja Protagonista até o último “OUT”…

…da Menininha do papai à Mulher Protagonista!

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