Juliana Shibata

Dedicação
por Juliana Shibata

Meu nome é Juliana Pires Shibata, mas no soft todos me chamam de Guga. Depois de ler os relatos emocionantes da Bárbara Woll e da Chie Someya, grandes jogadoras, exemplos e ícones do softbol brasileiro, o Samy Silva me perguntou se eu gostaria de escrever um pouco sobre a minha vida no softball. Eu disse a ele que não faria muito sentido, pois já parei de jogar faz um tempo (2011). Muitas pessoas nem sabem quem eu sou, mesmo assim ele insistiu que eu escrevesse e aqui estou.

Gostaria de começar a minha estória agradecendo a todas as pessoas que fizeram parte da minha trajetória como atleta. Nos 18 anos (1993-2011) que eu dediquei ao esporte, muitas pessoas passaram pela minha vida e tenho certeza de que todos foram importantes para cada conquista que eu alcancei.

Obrigada a todos os técnicos por todos os ensinamentos e cobranças, tudo isso me fez chegar aonde cheguei. Obrigada aos juízes pela paciência comigo nos campos, pelas mães dos baitens (cozinha), anotadoras, pais de amigas, torcida, adversárias e todos os amigos que fiz durante essa jornada.

Não fui uma jogadora excepcional, alcancei os meus objetivos no esporte com muito esforço e espero ter servido de exemplo para algumas jogadoras, assim como atletas mais velhas e até minhas colegas de time e da seleção serviram de exemplo para mim. Consegui abrir as portas do Northwest Florida State College para as jogadoras brasileiras e fico feliz toda vez que vejo que ainda tem jogadoras indo para lá. Converso com o Coach Jack, técnico do time, e ele gosta muito das nossas jogadoras. Parei de jogar com o sentimento de dever cumprido. Desde 2010 voltei a atuar na minha área (Odontologia) graças a minha amiga Simone Nishida (ex-jogadora do Gigantes), que abriu as portas do seu consultório para que eu pudesse pegar o gosto pela nossa profissão novamente. Quando voltei pensei em desistir de continuar na área. Se não fosse pelo incentivo e apoio dela, não sei que rumo a minha vida teria tomado. Hoje gosto muito do que faço.

O meu primeiro contato com o esporte foi em uma brincadeira de família em Atibaia. Meu pai e meus tios moraram na cidade durante a infância deles e jogaram beisebol por lá. Um dia eu estava no sítio da família dos meus tios e fomos brincar de beisebol. Nunca tinha jogado na minha vida, tínhamos um bastão que tinha a estrutura de metal, mas era forrado com uma espuma vermelha e um bastão de plástico que ninguém queria usar, pois a bola não ia tão longe com ele. No meu primeiro at-bat (tentativa de rebatida) com o bastão vermelho eu consegui rebater a bola, mas aconteceu um pequeno acidente, joguei o bat para trás e atingi o receptor. Não preciso nem falar que depois eu tive que brincar com o bastão de plástico, né?

Depois desse jogo, minhas primas começaram a jogar softbol no Cooper e depois eu acabei entrando para o time, em meados de 1993. Nessa época eu tinha uma bronquite muito forte, não conseguia correr nem a primeira volta de aquecimento que já ficava com falta de ar. Aos poucos isso foi melhorando e acredito que o softbol, junto com a natação, me ajudou a curar essa doença. Eu não tinha muito perfil de atleta, era meio descoordenada (para não falar muito) e virei especialista em castelinhos de areia, voltava mais suja para casa do que as meninas que jogavam, mas com o tempo e com os treinos fui melhorando e comecei a jogar para valer.

Comecei na categoria Mirim. Na categoria Infantil meu pai foi auxiliar técnico do meu time. Vocês conseguem imaginar com é ter o pai como auxiliar técnico? Eu sempre achava que ele cobrava mais de mim do que das outras, ouvia no campo e em casa. O sonho dele era que eu fosse pitcher (arremessadora). Acabei jogando um pouco nessa posição, mas mesmo depois de muito treino eu não conseguia ser boa o bastante. Meu negócio mesmo era rebater, gostava de rebater longe, tinha o swing grande. Jogava de 1ª base, de outfielder (posição ao fundo do campo) e shortstop (interbases). Foi como interbases que eu fui crescendo como atleta e ganhando o meu espaço no time, sempre jogava nas categorias acima da minha. Sei que hoje isso não é grande coisa, mas quando eu comecei a jogar os times tinham muitas jogadoras. Cada categoria tinha o seu time completo e reservas. Com isso a responsabilidade foi crescendo e o amor pelo esporte também. Tudo era soft, as amigas, os treinos extras em casa, até as torcidinhas a gente ficava inventando.

No Cooper eu pude jogar com meninas que eram consideradas boas jogadoras, pude me espelhar nelas para poder evoluir como jogadora e isso para mim foi muito importante. Tínhamos um time bastante unido e muito esforçado. Lembro-me de treinos muito gostosos, onde o técnico tinha caixas e caixas de bolas para bater ground balls (bolas rasteiras) para nós. Aí eu já voltava suja para a casa de tanto peixinho que dava para defender as bolas. Nessa época o nosso time melhorou bastante.

Em 1999, recebi a notícia de que algumas amigas mudariam de time, iam do Cooper para o Gigantes, o técnico de lá (Higashi) era o técnico da seleção. Fiquei dividida, mas acabei ficando mais um ano no Cooper. Foi um ano difícil, reestruturar um time não é nada fácil. Foi um ano em que muitas de nós do Cooper tivemos que mudar de posições para preencher as vagas que foram deixadas pelas meninas que saíram. Mesmo com o esforço de toda a equipe não tivemos bons resultados. Mas nesse ano fui convocada para a minha primeira seleção da CAPITAL. Foi uma experiência inesquecível, pude jogar com as minhas ex-colegas de time e com as melhores jogadoras dos times de São Paulo. O técnico era o Higashi, acabei gostando muito do estilo dos treinos. Lembro de um treino noturno no campo do Cooper. Nesse dia eu decidi que queria ser jogadora da seleção brasileira. E para poder melhorar o meu desempenho, mudaria de time.

Eu e meu irmão saímos do Cooper no ano 2000, eu comecei a jogar pelo Gigantes e ele pelo Nippon Blue Jays. Era uma loucura, meu pai começou a acompanhar o meu irmão e minha mãe ficava comigo no Gigantes. Fui bem recebida pelo time, pude conquistar alguns títulos brasileiros desde a categoria Júnior até a categoria Adulto. Como já faz algum tempinho não me lembro exatamente  de quantos, tô na dúvida se fui Campeã Brasileira na categoria Juvenil. Alguém lembra?

No Gigantes, o treino era exatamente como o da seleção, começava as 8:00 e terminava depois do pôr do sol. Nosso time era redondinho, super entrosado, conhecíamos uma a outra apenas pelo olhar. Nosso time era barulhento no campo, sempre conversando, nos apoiando, aquela energia era maravilhosa, mágica. Acho que muitos dos jogos e campeonatos que ganhamos foram por causa desse entrosamento. Foi muito gostoso poder jogar nesse time.

Lembro de um campeonato em Maringá, acho que era da categoria Júnior, time dos anos 84,85, 86 e algumas poucas 87. Fomos para a final contra Nikkey Curitiba, jogamos contra a Elayne, uma das melhores arremessadoras da nossa época, 1º inning, N. Curitiba no ataque, arquibancada cheia e elas colocaram 5 pontos. Gigantes no ataque da mesma entrada, arquibancada vazia (só ficaram os nossos familiares), colocamos 5 pontos também, ai a arquibancada lotou de novo. Esse jogo foi maravilhoso, super disputado, e ganhamos de 12x quase 12.

No ano de 2000, aos 15 anos, fui convocada pela primeira vez para uma seleção brasileira, campeonato sul-americano na Argentina, categoria Júnior. A sensação é incrível, poder jogar com as melhores jogadoras é sensacional, jogadoras de quem que você é fã, mas tem também as que você acha que são chatas, as que você acha são metidas, as que você nunca tinha falado e que tinha receio de falar.  Ai chega o primeiro dia de treino, e tudo o que você achava era pura maluquice da sua cabeça. As meninas são super legais, a que era metida tem tudo a ver com você, a mais chata é super divertida e assim vai. Foram algumas seleções, não muitas, mas foram boas. Fiz boas amizades nas seleções, hoje já não tenho mais contato com a maioria das meninas.

Pude jogar com grandes jogadoras da época. Participei de uma seleção Adulta em 2001, e fui titular aos 16 anos. Nessa época tomava bronca por ser arteira, por não agir como o resto das meninas, por ficar zoando algumas. Até meus pais foram advertidos por isso. Mas eu realmente era brincalhona demais, mas era assim que eu tentava ser dentro do campo. Sempre tentei fazer o meu melhor e me divertir. Dessa seleção lembro-me do jogo contra Cuba, perdemos, resultado apertado 3×0 ou 3×1, e a plateia nos aplaudiu de pé, por termos jogado bonito. Foi de arrepiar. Depois do jogo algumas pessoas entraram em campo para pedir autógrafos, alguns pegaram até nossas meias para as filhas que se encantaram com a gente.

Participei também dos jogos ODESUR (2002) aqui no Brasil, categoria Adulta, novamente pude jogar com as feras do nosso softbol. Ficamos no Blue Tree Towers do lado do shooping Ibirapuera, coisa fina. Esses jogos ocorreram no campo do Bom Retiro, a nossa dificuldade foi o gramado do campo e o casal de Quero-quero que tinham um ninho no outfield e atacavam as meninas. Mais uma vez nos divertimos muito.

Lembro-me de uma seleção em que não tinha sido convocada, acho que em 2004, o técnico era o Paca de Marília. Quando a gente participa de uma seletiva e acha que tem chance de ser convocada não consegue nem dormir no dia de divulgação da lista. A sensação de não ver o seu nome na lista é péssima. Me senti do tamanho de uma formiguinha. Fiquei triste. A July também não tinha sido convocada e nos falamos bastante. Depois de alguns dias, eu e ela recebemos a notícia de que algumas jogadoras convocadas não poderiam participar do campeonato por estarem em época de vestibular. Fomos convidadas a participar da seleção, confesso que pensei em não ir, mas essa minha atitude poderia fechar as portas da seleção. Eu já estava na faculdade e acho que a July já era formada. Decidimos aceitar o convite juntas. Ficamos com aquela sensação de que fomos convocadas para tapar buraco.

Fomos treinar com o objetivo de lutar por uma vaga no time titular, sabíamos que não seria fácil, mas mesmo assim nos esforçamos. Fomos para os jogos como reserva e para a nossa surpresa, depois conseguimos uma vaga no time. Jogamos bem e isso fez muito bem para a nossa imagem no soft. Fiquei feliz por ter feito parte da equipe e por ter conhecido outras meninas com quem nunca tinha jogado antes. Tive a oportunidade de ter sido treinada por um técnico que era de uma equipe diferente da minha. É legal aprender outras formas de treinamento, estratégias, ver que cada um tem sua forma de pensar e de colocar o time em campo. Foi uma experiência bastante gratificante. Depois rumo ao PAN 2007.

Sempre tive problemas com o meu tornozelo, vivia torcendo o pé, mas nunca era sério de mais a ponto de me impedir de voltar a treinar. A equipe do Pan treinou por muito tempo, começamos com muitas atletas e haveria cortes até que restassem apenas as 17 atletas que participariam do PAN 2007. O grupo era muito bom, era muito triste saber que algumas seriam cortadas e que qualquer uma de nós poderia deixar de fazer parte do grupo. Em 2005, a equipe do Pan participaria de um campeonato na Guatemala.

Alguns dias antes da viagem, torci o pé durante um jogo treino e rompi 2 ligamentos do tornozelo, para minha sorte (SQN) era feriado e só passei no Pronto Socorro, coloquei um robofoot (bota Imobilizadora), ganhei um par de muletas e fui medicada. Meu tornozelo ficou gigante, parecia uma bola de soft ou duas. Não conseguia pisar. Na época a nossa equipe contava com um preparador físico (Denis) e uma fisioterapeuta (Denise), eles cuidaram bastante de mim. Fui orientada a fazer gelo a cada X horas, mas fazer gelo era colocar o pé dentro de um balde com muito gelo e água. Meu pai que me carregou no ombro do campo ao carro quando cai no campo, me acordava de x em x horas para fazer o gelo, não escapava nem de madrugada.

Fui ao especialista e depois de fazer uma ressonância descobri que o meu caso era cirúrgico. Fiquei arrasada, queria muito ter participado dos jogos, mas meu tornozelo estava literalmente solto. Fiz a cirurgia no início de DEZEMBRO 2005, fiquei afastada da seleção por 4 meses e meu medo era não conseguir mais voltar bem a ponto de garantir a minha vaga no Pan. Voltei aos treinos e senti grande dificuldade no início, estava sem ritmo de jogo e fora de forma.

Voltei a jogar e consegui me manter no grupo, em SETEMBRO de 2006, torci o pé de novo. Mesma dor, mesmo inchaço, eu chorava de tristeza, meu coração estava arrasado, o sonho do Pan ficou mais distante de mim naquele dia. Eu chorava mais pelo medo de não conseguir voltar a tempo. O Pan era em JULHO de 2007. Fui ao médico, e o tempo de recuperação seria o mesmo, 4 meses.

Após esse período me recuperei e voltei ao grupo. Mesmo sofrimento, estava fora de forma e precisava atingir o meu auge para ser convocada. Graças a Deus, por conta de muito esforço consegui ser convocada para a equipe do Pan. Fiquei muito feliz por estar no Pan, mas todas nós convocadas ficamos muito tristes pelas meninas que não haviam sido convocadas. Como o tempo de preparo foi muito longo, convivemos bastante com elas, foi como se tivessem arrancado um pedacinho de nós.

Antes de ir para o Pan, algumas atletas do nosso grupo foram selecionadas para fazer um ensaio fotográfico. O objetivo era aparecer na mídia, divulgar o esporte. Aparecemos, participamos de algumas matérias de TV, entrevistas de sites, foi um período bastante diferente para nós da equipe.

No Pan RIO 2007, participamos da abertura, Maracanã lotado, atletas de vários países, festa maravilhosa. Ficamos todas encantadas e muito empolgadas. Nessa seleção eu fui como reserva de short stop. Logo que chegamos a jogadora titular se machucou na academia e deu um susto grande em todas nós. Teve que tomar pontos, mas foi liberada para jogar. Os jogos tinham início previsto para o dia 22/07, mas, por conta da chuva, nossos jogos começaram no dia 25/07, bem no dia do meu aniversário. Minha família estava lá para me assistir e prestigiar todas as jogadoras.

Nesse primeiro dia de jogos nossos adversários eram simplesmente as seleções dos Estados Unidos e Cuba. Antes de ir para o estádio nos reunimos e conversamos sobre os jogos. Nosso técnico disse que o primeiro jogo que seria contra os Estados Unidos seria um “jogo treino”, que todas nós entraríamos para pegar ritmo de jogo e estrear no campeonato, para tirar aquela ansiedade de primeiro jogo. E que no segundo jogo contra a seleção de Cuba iríamos entrar com tudo, para ganhar.

Chegamos no estádio que estava com muitas pessoas conhecidas, os colaboradores e voluntários eram todos do soft e do beisebol, e na arquibancada amigos e familiares. No primeiro jogo o time titular começou jogando, os innings foram passando (não foram muitos, pois nosso time não teve nem chance contra a seleção americana), as jogadoras foram sendo substituídas e no final do jogo eu fui a única que não entrou em campo. No jogo contra Cuba eu também não entrei. Perdemos, mas não de muito o jogo foi bom.

Nesse dia eu fiquei completamente desiludida com o Campeonato. Eu já sabia que era reserva, mas o que mais me machucou foi a palavra do técnico de que todas entrariam em campo e eu fui a ÚNICA que não entrou.

Quando o jogo acabou, corri para a minha família, chorei muito, queria ter ido embora com eles, não me sentia mais da equipe, me senti excluída, ignorada. Quem me conhece sabe que eu não consigo esconder o que sinto. Fica tudo muito bem estampado na minha cara. Foi difícil voltar para a famosa Vila Pan-americana.

Na Vila as meninas falaram que iam pegar um bolo para cantar parabéns para mim, mas eu disse que não queria. Infelizmente pegaram o bolo, e eu que queria apenas ficar sozinha e sumir, tive que ficar em um quarto e ouvir os parabéns. Não lembro nem se assoprei a vela, sai do quarto. Não queria comemoração. Aquele foi e se Deus quiser vai continuar sendo o pior aniversário da minha vida. Nosso desempenho no Pan não foi bom, mas foi o melhor que pudemos ter naquela época.

O que lembro de bom do Pan foram as cerimônias de abertura e encerramento, da nossa alegria de poder fazer parte desse evento e de estarmos juntas em mais uma seleção. Mas infelizmente também tenho essas memórias ruins. As coisas ruins a gente acaba não esquecendo.

Depois do Pan eu tive muita dúvida sobre continuar jogando no Gigantes. Não queria continuar por conta do ocorrido no Pan, mais uma vez o técnico da seleção tinha sido o Higashi, que era técnico do meu time.

Por sorte eu e mais duas meninas (Vivian e Ninjja), começamos a ver de jogar fora. Tivemos auxilio da Fernanda que era agente de atletas de beisebol. Ela nos ajudou a começar a busca de um time que tivesse interesse em ficar com a gente. Estávamos vendo com uma universidade em Niagra Falls. Mas no fim as meninas conseguiram uma vaga para elas em um time de Miami.

Fiquei bastante decepcionada com elas por terem me deixado de lado, mas ao mesmo tempo felizmente a sorte bateu na porta delas e não na minha. O coach delas até disse que se eu esperasse mais 6 meses ou 1 ano poderia ir para o time delas, mas eu resolvi me virar sozinha, afinal já era formada e era bem mais velha do que elas.

Iniciei novamente a busca de um lugar, fiz um skills vídeo com a ajuda de algumas meninas (Vivian, Nilze, Pri Seguchi, não me lembro se mais alguém) e enviei o mesmo para as Universidades. Mandei e-mails para todas as Universidades possíveis e todos os Colleges. Fiz a prova do TOEFL que é necessária para que se possa cursar um College ou uma Universidade nos Estados Unidos. Isso para que não fosse necessário fazer aulas extras por conta do inglês.

Recebi a ligação do Coach Jack Byerley, o mesmo disse que havia se interessado pelo meu vídeo e queria saber se eu conseguia falar inglês. Conversamos e combinamos que eu iria jogar para ele no NWFSC em Niceville –FL.

Antes de ir para Niceville eu tive a oportunidade de fazer uma viagem para o Japão, fiquei hospedada na casa da família da Ninjja Suetsugu. Pude visitar o meu irmão que jogava no Japão em Fukushima e visitei vários lugares lindos. Obrigada família Suetsugu pelas férias, pela atenção e por terem me recebido bem na casa de vocês.

Em Agosto de 2008, fui para Niceville, chegando lá eu só via árvores pela janela do avião, a cidade era pequena, fiquei com medo da solidão. Fui recepcionada pelas atletas do time no aeroporto e quando cheguei, tinham cartazes com o meu nome e me desejando boas vindas. Cumprimentei todos com beijinhos na bochecha. Só depois de algum tempo descobri que tiraram o maior sarro de mim, os americanos não são muito de abraços e beijos, são mais de apenas um Hi.

O coach Byerley me levou para o apartamento em que eu ficaria com a Chie, que chegaria um mês depois. Cheguei no final da tarde em um apartamento que estava vazio, ainda bem que eu tinha levado roupa de cama, travesseiro, coberta. Lá no quarto não tinha nada, nem papel higiênico. Larguei as coisas no apartamento e fui para o escritório do coach ligar para a minha família, chorei de saudades, a sensação de solidão foi grande. Voltei para o apartamento e estava morrendo de fome. Fui pedir para a técnica assistente me levar para comer alguma coisa. Comprei uma pizza que foi minha janta, meu café da manhã e minha janta do dia seguinte.

Comprei as coisas para o apartamento, panelas, talheres, pratos, copos, comida. As meninas do time me ajudaram muito, pois não tinha carro e as coisas eram distantes do nosso alojamento. Só tinha mercado grande na cidade vizinha. O time era muito bom, o técnico era bem exigente, mas eu já estava acostumada com isso. No meu time tinham meninas de vários lugares dos Estados Unidos, elas eram mais novas, tinham 18 anos e eu já tinha 22. Logo a Chie chegou e depois no início do ano de 2009 a Nega também. Lá a temporada acontece no inicio do ano. Nossos treinos aconteciam todos os dias, ás vezes tínhamos folga no final se semana. Tínhamos responsabilidade com os estudos também.

Na Spring Season é que a coisa pega. Tem os jogos da conferência, onde competimos com times da região, apenas dois da nossa conferência Panhandle se classificam para os jogos estaduais. Na nossa conferência tinham 5 times.

Nós estávamos nos preparando para os jogos da conferência, fazendo amistosos e no último amistoso aconteceu um acidente comigo. Estávamos na defesa, uma corredora na 1ª base, lance provável de Steal, se não me engano estávamos com 2 outs. A corredora correu, nossa catcher jogou a bola um pouco para o lado da 2ª base. Vi o lance todo na minha cabeça, vou dar um peixinho pegar a bola, dar um touch na corredora e já era. Foi mais ou menos assim, o começo pelo menos, corri, dei o pexinho, peguei a bola e recebi uma pancada no braço. Quando vi estava no chão com uma sensação estranha. Achei que meu ombro tinha saído do lugar. Cai deitada sobre o meu braço direito e segurava o meu braço esquerdo na região do punho e junto ao meu corpo. Logo vi que o jogo parou e eu ali caída. Perguntei para a Chie se era o meu ombro e ela não conseguiu me responder. Resolvi olhar o meu braço e vi que tinha alguma coisa bem errada. Tinha quebrado o braço. Mais uma vez não pude participar de um campeonato que ia ser maravilhoso. Nosso time estava indo bem, eu estava indo bem.

Queria agradecer de coração a Chie e a Nega por toda a ajuda que me deram. A Chie ficou preocupada comigo e até colocou o colchão dela do lado da minha cama para me ajudar caso eu precisasse e eu precisei muito! Fiquei super triste, até meio depressiva por conta do ocorrido. Nesse ano fomos campeãs da nossa conferência e fomos para os jogos estaduais. Lá encontramos as meninas de Miami. Infelizmente não nos classificamos para os Nationals, mas as meninas de Miami se classificaram e até foram Campeãs do National Championship.

Quando estávamos retornando dos jogos estaduais depois de não sermos classificadas o meu coach me chamou e perguntou se eu ainda iria querer jogar. E eu disse que sim, se ele quisesse que eu voltasse a jogar no time dele. Ele me disse que achou que eu iria parar de jogar e tinha dado a minha vaga para uma nova jogadora, mas que ele iria tentar uma nova vaga para mim.

Voltei para o Brasil, com o braço quebrado, não pude participar de uma seleção por conta disso. Me recuperei durante o nosso inverno e em Agosto pude voltar a jogar no mesmo time. Junto comigo ficaram a Chie e a Mary. Nos divertimos bastante. Nosso time não era tão bom quanto ao do meu primeiro ano. Nos classificamos para o torneio estadual, mas mais uma vez não conseguimos ir para o torneio nacional.

O pessoal lá em Niceville é super receptivo. Todos nos trataram muito bem e com muito respeito. Conhecemos até uma Senhora japonesa que nos levava obentô e nos convidou para irmos até a casa dela. Ainda bem que a Chie falava japonês.

Voltei para o Brasil, e fui jogar no Gigantes-Gecebs, lá conheci pessoas maravilhosas que eram do Gecebs. Agradeço a todos por terem me recebido com muito carinho. Parei de jogar em 2011, ganhamos o Brasileiro, nesse ano joguei de 1ª base, estava com o joelho bem judiado. Decidi parar para me dedicar mais aos estudos. Desde 2010 eu faço cursos da minha área sem parar.

Minha última seleção não foi como jogadora, mas sim como manager. Tive o privilégio de fazer parte da equipe campeã do ISF World Youth Cup – 16 U, em Plant City – FL. Conheci pessoas lindas nessa viagem e pequenas promessas para o futuro do nosso esporte, muitas delas foram jogar fora. Os técnicos da equipe, Fernando Fukuda, Roberto Fukunishi e Mikio Kanawa, tinham um time que valia ouro, meninas muito talentosas. Com a ajuda do hotel e da equipe Tia Bonita, Tchay, Lolita, Paulo, tio Raul, tia Neuza e Marise Fukuda fazíamos jantas simples por lá mesmo. Com isso economizamos uma graninha das meninas. O melhor foi comemorar a vitória nos parques da Disney. Os pais ficaram muito felizes com o resultado e com a economia. Time de ouro e equipe de ouro também.

O softbol mudou a minha vida. Com o softbol aprendi a vencer, a perder, amadureci muito quando joguei fora, fiz muitas amigas, pude conhecer outros países e aprender outras culturas. Perdi amigas (Malu e Sara), dessas o que fica é a dor no peito, a saudade e a gratidão por poder ter convivido com elas, sempre penso em vocês! Relembrando esses momentos até deu saudades de jogar, mas penso no calor, na terra, nas dores, nos machucados…

Vocês atletas na ativa estão de parabéns! Sinto muito orgulho de todas! Que Deus abençoe a vida de todos nós e que cada um possa ser feliz da sua forma. Sigam os seus sonhos, cultivem boas amizades, tratem bem as pessoas e vivam cada dia como se fosse o último at-bat de um jogo que está empatado e com bases cheias.

Obrigada Samy pela oportunidade de contar a minha estória a todos. Obrigada família por sempre me apoiar em tudo na minha vida. Amo vocês!!!