[Histórias] Ana Tanaka

Ana Carolina Tanaka Nagai, sendo que o Nagai passou a compôr parte do meu nome há 6 anos. Hoje, com 36 anos (nossa!), casada, com um filho de 4 anos (meu eterno pacotinho Thomas), trabalhando intensamente nessa loucura da pandemia. Filha do Barba e da Helena Tanaka, irmã da Naylla (que passou pelo Giants e se encontrou no Cooper) e do Robson (que passou pelo Giants, foi técnico no Cooper e continua no ANC).

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Fui convidada pelo Samy para contar minha história neste mês tão especial, em que comemoramos o Dia das Mães. Fiquei lisonjeada! Ainda mais porque vejo tantas histórias de atletas que tiveram passagens em seleções brasileiras, experiências internacionais, conquistas de títulos importantes, enfim… e, para quem me conhece, sabe que minhas vivências foram um pouco diferentes dessas.

Comecei a jogar softbol aos 8 anos, sendo que meu primeiro ano foi no antigo Giants (sim, tenho uma ou outra foto com o uniforme listrado de branco e vinho, e o sensei Higashi já estava lá!). Meu irmão, Robson, começou a jogar no Giants porque meu primo Regis Hirata também jogava e decidiu ir lá para entender o que era esse esporte. Nessa época, eu não jogava e só tinha interesse em acompanhar para brincar na areia e nos parquinhos que existiam nos campos. Com o tempo, meu pai me incentivou a experimentar o esporte também, já que eu acordava cedo e o acompanhava nos finais de semana. E lá fui eu. Confesso que no meu primeiro catchball levei uma bolada na garganta, afinal, não é um esporte tão trivial e fácil! Mas, apesar dessa trágica experiência, fui gostando. E meu primeiro torneio foi no Anhanguera Nikkei Clube (ANC), em Santana de Parnaíba. E, depois de um tempinho, esse foi o time que se tornou minha 2ª família.

Meu irmão estudava no mesmo colégio que os irmãos Braga, que também jogavam beisebol, porém no ANC. Com essa aproximação, ele acabou mudando de time e, como consequência, eu também. Um novo campo, novas pessoas, novas experiências, enfim, um novo tudo aos meus longos 9 anos de idade. Lembro-me como se fosse hoje esse meu primeiro dia: fui de carona com o tio Amano e a Camila Amano e, chegando no campo, fui super bem recebida pelas irmãs Raylla e Rellen Matsumori – gêmeas idênticas, então, imagina se não fiquei confusa na primeira vez! E o técnico era o sensei Nakamura, que sempre foi paciente e sempre nos tratou com amor. E me senti acolhida, em casa e nunca mais sai de lá. Já faz 27 anos.

No começo lembro que era muito mais diversão do que treino. O parquinho era o lugar mais divertido onde todas nós brincávamos antes dos treinos começarem e para onde íamos quando o treino acabava. Ainda peguei a época em que as piscinas ficavam abertas e era uma ansiedade enorme para acabar logo o treino e pular nelas. Parquinho, piscina, quadra, vôlei, patins, taco, subir na árvore… eram tantas brincadeiras divertidas! E, com o tempo, passaram a ficar em segundo plano para que os treinos ficassem mais sérios.

Foram anos de treinos em todos os finais de semana e durante a semana – treinava na sede social (na Lapa) ou no Lorena Flat, na época. E o momento mais significativo para mim foi quando recebemos dois técnicos cubanos, o Osório e o Molina, em 1997. Os treinos se intensificaram bastante e o Osório conseguiu enxergar e incentivar o melhor em cada uma de nós. Lembro que eu treinava de 1ª base (“fasto”) e ele mandou eu ir para Shortstop (“shoto”). Minha cara foi de “Oi? Sério? Tá louco?”. Jamais imaginaria, mas assim foi por anos – até que meu braço se aposentou antes da minha força de vontade. O Osório praticamente definiu a nossa formação de time por muitos anos. Os treinos foram intensos, ele era duro e cobrava bastante de nós, mas, com certeza, foram os melhores anos da minha vida como atleta, onde realmente pude dar o meu melhor, onde consegui ver potencial em cada jogo. Acho que foram os anos que consegui olhar para algumas outras jogadoras com menos medo. Afinal, sempre fui baixinha e tinha muito medo quando via algumas rebatedoras no batting box.

Faço parte daquela época que existiam muitos times e, para que pudéssemos disputar o Torneio Brasileiro, passávamos pela extinta Classificatória. Acho que conseguimos participar praticamente de todos os brasileirões, mas era sempre uma ansiedade. E, no encerramento desse torneio, eram anunciados os nomes das jogadoras que iriam compor a equipe da Seleção da Capital – sim, ainda existiam os torneios entre regionais. Claro que sempre existia, no fundo, uma certa expectativa! E, acho que em 1999 ou algum ano próximo a esse, fui convocada para a Capital, junto com outras 20 e tantas ótimas atletas. Foi uma boa experiência, porque é aquele momento em que você defende o mesmo time, jogando ao lado de atletas “rivais” e percebe o quanto elas são boas e faz você querer também dar o seu melhor. E esse foi o ápice das minhas experiências em seleções.

Com o tempo, a vida passa a ter outras prioridades e, apesar de amar o esporte, o vestibular passou a ser mais importante em uma determinada época. E, em 2003, fui estudar no interior (Assis). Claro que não conseguiria voltar para São Paulo com frequência para treinar ou jogar, e com 19 anos e ainda muito insegura, achava que a distância impactaria nas relações e que nada seria igual como antes. Felizmente, ao longo dos 5 anos que fiquei em Assis, graças aos esforços dos meus pais, consegui participar de todos os torneios oficiais e universitários. E, obviamente, percebi todas as vezes que eu me encontrava com as meninas, tudo era exatamente igual, como se eu estivesse todos os finais de semana em São Paulo.

Nesse interim, em 2005/2006, fiz arubaito no Japão e lembro que voltei em um sábado e estava tendo torneio no Nippon, mas já tinha avisado que não iria. No dia seguinte, acordei com o telefone tocando: “Aninha, está faltando uma pessoa no time, você consegue vir?”. Mesmo estragada, desnorteada e sem treino, logicamente disse sim. Nessas situações você nem raciocina direito, só pega uniforme, globo, chuteira e vai. E é ai que você percebe o que esse esporte significa.

Como comentei lá no começo, não tenho tantas histórias de conquistas, nem coleção de troféus e títulos. Mas, dentro do meu portfólio de atleta, tenho conquistas inimagináveis com relação à história de vida, aos aprendizados, à amizade e ao amor.

Em 2003 tivemos a oportunidade de realizar o 1º Torneio Soft Misto ANC, que foi até a sua 9ª edição, em 2011. E a comissão era formada por pessoas de diversos times. Organizar, negociar, ter equilibrio, amadurecer, aprender, apelar para o teru teru bozu, construir. Todos os anos foram assim e tenho tanto orgulho pelo que construímos juntos pelo e para o clube.

Com o passar dos anos, a “rivalidade” vai dando espaço para a amizade, para o somente o prazer de jogar e pelo sentimento único de quando entramos em campo. E, em 2011, continuávamos participando de torneios e convidando meninas de outros times para se divertirem conosco. Conseguimos formar um time muito bom e, principal, unidas pelo esporte. Em 2015, formamos o Brewers ANC para a Taça Brasil e foi um belo de um time! Ficamos em 3º lugar. E já estávamos super animadas para o Brasileirão, que seria em Marilia! Foi no meio de toda essa animação, depois de 2 semanas da taça, que eu recebi a melhor notícia da minha vida: eu estava grávida.

Confesso que quando eu tinha meus 15 anos, não imaginava que após casada e com filho, ainda estaria jogando. Tinha aquela visão de “Ladies” que se encontrariam de tempos em tempos só para jogar conversa fora, com as chuteiras penduradas. E hoje, vejo o quanto isso é possível e cada vez mais visto. Na verdade, acho que parte disso se deve por querermos manter vivo o esporte. Infelizmente, já não vemos tantos times com categorias de base se formando e renovando. E, por esse espírito que foi criado em nós, faz com que joguemos e ainda levemos nossos filhos ao campo, para saberem onde crescemos, aprendemos e formamos nosso caráter. Bom, e o fato é que, depois de 1 ano e pouquinho, eu estava em campo, de novo.

Ao longo desses anos, conheci muitas pessoas. Foram trocas de telefones, fotos 3×4, cartas, chaveirinhos com nomes, ICQ, Messenger… todas as pessoas, de alguma forma, passaram pela minha vida e tem alguma história para contar. Tem uma pessoa, em especial, que entrou na minha vida em 2001 e nunca mais saiu dela. Ele apareceu no carnaval no ANC, querendo convite. Depois, apareceu de novo, no campo do ANC e amassou latinhas com a gente. E, depois de alguns meses, o Ronaldo Akiyoshi Nagai, conhecido como Tom, estava se tornando um dos meus melhores amigos. Entre conversas, escolhas, diferenças, distâncias, enfim, estávamos namorando 2 anos depois. Com certeza, nossa história daria um livro! Permanecemos juntos há 17 anos, casados e com o nosso maior presente, o Thomas.

A oportunidade de escrever esse depoimento me fez refletir sobre esses 28 anos de esporte. O softbol, para mim, não é sobre somente ganhar, mas sim sobre entrar em campo pelo amor ao esporte, ao lado de pessoas que tem esse mesmo sentimento e que se divertem em cada inning jogado. Quando olho para trás, não consigo imaginar minha vida sem o softbol: fez parte da minha formação, da personalidade, de identidade, da construção dos valores que fazem parte de mim. Hoje olho ao meu redor e meus melhores amigos são do softbol e beisebol.

Meus melhores momentos, melhores memórias, principais recordações, minhas melhores experiências. Encontrei nesse esporte as minhas referências, amigos que são irmãos de alma e meu marido. Amigos que estiveram presentes na conquista do vestibular, na formatura, no noivado, no casamento e no nascimento do Thomas. Pessoas presentes nos ciclos mais importantes na minha vida e que queremos deixar vivo em nossos filhos essa mesma amizade, esse mesmo reflexo de aprendizados dentro e fora do campo.

Agradeço eternamente aos meus pais por terem incentivado a mim e aos meus irmãos a prática desse esporte tão único. Sempre nos apoiaram e nunca nos deixaram desistir, passando por cima de quaisquer dificuldades para continuarem nos motivando.

Meu muito obrigada!

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