[Histórias] Aline Uehara

Oi! Me chamo Aline Uehara, algumas pessoas me chamam de pretinha, tenho 28 anos. Hoje vou contar para vocês, um pouquinho, como foi a minha trajetória no Softbol e o que o esporte trouxe para minha vida.

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Histórias - Aline UeharaTudo começou quando eu tinha 8 anos (ano 2000) eu jogava pelo antigo Giants que ficava lá na Barra Funda, lembro que no primeiro dia de treino, fiquei com receio muito grande de ir treinar sozinha porque eu sempre fazia tudo o que o meu  irmão (Tetsui Uehara) fazia, mas foi um acordo que eu tinha com a minha mãe, ela só tinha deixado eu ir para o campo se eu fosse jogar com as meninas porque eu não tinha muitas amigas naquela época haha.

Depois do primeiro final de semana de treino, fiquei muito feliz, era um sentimento muito grande parecendo “amor a primeira vista” amei o soft, depois daquele dia tudo o que fazia e falava era sobre o softbol e beisebol.

Histórias - Aline UeharaMeu pai, era sensei de judô, e imagino que foi muito difícil para ele largar o esporte que ele amava para poder aprender um esporte totalmente novo, mas ele largou na hora que viu  eu e o meu irmão tão feliz por fazer parte dessa comunidade.

Depois de algum tempinho, meu irmão acabou se destacando no beisebol e foi selecionado para participar de várias seleções de base, e naquele tempo não existia seleção de base para o soft, então o meu objetivo naquela época era me divertir treinando, viajando para os torneios, assistir as atletas mais velhas e brincar na terra haha

Foi assim até que um dia que assisti um torneio do Júnior/ juvenil do Soft e coloquei na cabeça que queria ser igual às meninas jogando. Sempre falava para os meus pais que não via a hora de chegar no adulto pra jogar na seleção com elas.

No tempo de Mirim, lembro que o sensei Igi mandou todas as meninas tentarem arremessar foi  onde  perceberam que eu tinha um potencial de virar arremessadora, acabei conhecendo as muchachas Maritza e Rebeca, e a partir daí comecei a treinar de pitcher durante semana e final de semana.

Histórias - Aline UeharaNo ano de 2005 meu irmão acabou mudando de time e indo para o Gecebs, lembro que eu não queria mudar de time porque todas as minhas amigas estavam no Giants comigo desde sempre, mas foi muito difícil pra eu continuar lá, meus pais me deixavam no campo as 5:30/6 da manhã e o meu treino só começava às nove, ficava dormindo na arquibancada até dar a hora do café da manhã. Minha mãe não gostava que eu ficasse  sozinha por muito tempo, então acabei mudando de time, e fui para no Nippon Blue Jays.

Indo para o Blue Jays vi que cresci bastante como atleta, acabei jogando em categorias maiores com as atletas mais velhas, em 2007 deram a notícia que iria ter uma seleção sub-17 para a Venezuela, aquele sonho de t-ball voltou com tudo, lembro que fui convocada para seleção, só que 2 semanas antes de viajar, cancelaram o torneio, chorei muito, a minha mala já estava feita, e não queria desfazer, o time inteiro ficou muito triste, mas Graças a Deus surgiu outra oportunidade, não era sul-americano, mas era uma participação para dar clínica no Aelu no Peru.

Histórias - Aline UeharaFoi a minha primeira seleção e estava muito feliz, no ano seguinte confirmaram mais um sub-17 para o sul-americano,  treinei tanto, mas não fui convocada, fiquei triste quase parei de jogar. Meus pais me apoiaram bastante naquele tempo e até me deram ideia de fazer inglês para um dia poder fazer intercâmbio.

Comecei a fazer inglês, não gostava muito não, eu achava muito difícil aprender então nem dei meus 100%.

Aí nos anos seguintes, veio a notícia que surgiu uma oportunidade  para as meninas jogarem nos EUA pela faculdade, meu sonho de t-ball veio a tona, coloquei na cabeça que eu iria fazer de tudo para ir para os EUA jogar softol. Em 2010 acabei recebendo a bolsa de estudo pra o Miami Dade College, na Flórida, muito obrigada Carlos Caro, Omar Rodrigues, Maritza e Rebecca, a Simone Suetsugu e a Vivian Morimoto, que me ajudaram muito na minha trajetória para os EUA.

Histórias - Aline UeharaFui para lá com inglês muito básico, sem brincadeira não sabia falar um “A” em inglês hahah, joguei dois anos no Miami Dade, tive muita dificuldade para transferir para outra universidade para finalizar o meu curso, pra quem não sabe, Miami Dade é classificado como NJCAA onde que você só pode jogar 2 anos e para completar os 4 anos de esporte e finalizar a faculdade você tem que se transferir para uma faculdade de 4 anos, lembro que era em março de 2012, eu pedi  pra Simone Suetsugu (Ninjja)  me ajudar a mandar e-mails para os outros técnicos de outras faculdades, o único problema era que várias faculdades não queriam pagar um ano extra para eu me formar, porque eu precisava de 3 anos no total.

Histórias - Aline UeharaO meu tempo estava acabando no Miami Dade, lá em agosto de 2012, o Bluefield College onde que já tinha recusado o meu e-mail, em março, entrou em contato falando que tinha mudado o técnico e eles podiam me ajudar com 3 anos de faculdade, nesse mesmo dia, antes do contato, eu tinha ligado pra minha mãe e falado pra ela chorando que sexta-feira podia comprar a minha passagem de volta para o Brasil, parecia um milagre. Liguei de volta pra minha mãe, ela já estava esperando eu falar que horas que queria o voo pra casa, mas falei que queria uma passagem pra Virgínia.

Histórias - Aline UeharaFui de ônibus pra Virgínia, demorei um século para chegar lá, e era muito diferente de Miami, o inglês com sotaque country, eu a única “diferente”, não tinha cabelo loiro, os olhos azuis e falava inglês com sotaque latino. Nas montanhas de Virgínia, minhas colegas de time não gostaram muito de mim, porque logo que cheguei, meu técnico me apresentou para todo mundo e até tinha um telão com a minha foto dizendo Bem-Vinda Aline hahah achei muito engraçado, Graças a Deus  Vice-presidente da faculdade, Trent Argo, era casado com uma brasileira, Sandra Argo, e eles me receberam de braços abertos e acabaram me adotando, faziam bastante churrasco nos finais de semana e me senti em casa perto deles.

Histórias - Aline UeharaLa em Bluefield conheci a Morgana, ela tinha morado no Brasil por 10 anos, e nos tornamos irmãs, ela me ensinou muito e tomou conta de mim. A Bluefield é uma faculdade cristã, e antes de eu ir para lá, não era muito ligada a religião, mas vivendo em Bluefield por mais de 3 anos, aprendi muito sobre o cristianismo e sou muito grata ao meu técnico, Coach Fielder, e a Morgana.

Em 2013, na volta do feriado de ação de graças, eu e minhas amigas, sofremos um acidente de carro, não lembro muito bem como foi, mas estava nevando, a estrada estava congelada, e graças a Deus acordei segundos antes de bater e consegui me proteger, meu amigo estava do meu lado, não conseguiu acordar a tempo e acabou cortando a cabeça e sofrendo uma contusão onde que ele foi obrigado a parar de jogar Football (Futebol Americano), fiquei de muletas por 2 semanas, mas fora isso nada de ruim aconteceu só o carro que foi destruído completamente.

Histórias - Aline UeharaNo meu último ano (senior year) de Softbol em Bluefield, fiquei muito triste, não sabia o que fazer sem o esporte, chorei muito, o meu técnico tinha prometido que iria pagar o meu último ano, então fiquei de coach auxiliar, e também participei como corredora de cross country, tudo que reclamei de treino e condicionamento físico, não era nem 10% o que fiz no meu último ano como corredora, corria todos os dias, de manhã era 45 minutos à uma hora de corrida e de tarde era entre cinco e sete milhas de corrida, algo em torno de oito a 11 quilômetros. CORRI MUITO ate as minhas unhas dos pés caíram haha lembro que pintava a minha pele para fingir que tinha unha hahaha

Me formei em 2015, em administração e marketing, consegui trabalhar pelo Bluefield Blue Jays por quatro meses, conheci o Hall da Fama da Major League Baseball (MLB), Sandy Alomar Sr. e lembro que ele me tratou super bem e me chamava até de filha haha me deu vários bastões de madeira e bolas.

Histórias - Aline UeharaEm 2015, acabei me mudando para Miami, onde que comecei a trabalhar. Na época conversava todos os dias com um amigo pelo Facebook, começamos a namorar e, em 2016, ele largou tudo e veio morar comigo em Miami. Casamos e engravidei depois de uns quatro meses. Quando eu descobri que estava grávida, fiquei com muito medo, eu não tinha experiência nenhuma com criança, a única vivência era com a minha priminha Mellissa durante as férias da faculdade haha que, aliás eu mais brigava com ela do que cuidava. Haha

Histórias - Aline UeharaNo começo foi muito difícil, então decidimos voltar para perto da família do meu marido, para poder ter ajuda com a gravidez, voltamos em abril de 2017 e o Jordan, meu filhinho, nasceu em junho, meu barrigão pra quem viu parecia que eu estava grávida de gêmeos ou trigêmeos, hahaha Jordan veio ao mundo com quase 5 kg.

Tentei ter parto normal, mas era impossível, fiquei mais de 14 horas em trabalho de parto, e por um errinho da comunicação entre enfermeiras e a minha doutora, acabei tendo complicações depois do parto, fiquei de cama não conseguia andar, e quase tive um ataque de coração, o meu filho foi liberado antes de mim do hospital, mas graças a Deus depois de oito dias tive alta e voltei pra casa.

Histórias - Aline UeharaComo eu tinha mencionado antes, não sabia o que fazer com um bebê haha minha mãe (dona Mirian) me ajudou bastante por 4 meses, depois ela teve que voltar pro Brasil, aprendi muito com tudo, acredito que a jornada do soft foi um preparo para ser mãe, hoje sou mãe e day trader, e com essa quarentena virei professora do meu filho também haha, nunca imaginei que iria cantar galinha pintadinha, mundo bita, Vila Sésamo o dia inteiro hahaha e ficar assistindo YouTube para fazer atividades para crianças.

Sou muito grata ao Esporte, mas também sou muito grata aos Portiollis (Rosi, Anne, Tio Silvio) Maritza e Rebecca, Carlos, Omar, Gina, Coach Fielder, Simone (Ninjja), Sandra e Trent Argo, Morgana Jefferson, meu marido e minha Sogra, e aos meus pais e minha família no Brasil.

Muito obrigada por tudo, pela ajuda e apoio, não consegui mencionar todos os detalhes aqui, mas sou grata por tudo.

For my family here in the USA, i want to say that i am very grateful to have you all in my life, thank you for everything that you have done for me and i love you all so much !

Histórias - Aline UeharaAcredito que o maior sacrifício que tive foi ficar todo esse tempo longe da minha família e amigos, são 10 anos passando aniversários por FaceTime/WhatsApp. Eu agradeço todos da minha família que sacrificaram muito para eu estar aqui hoje, e quero também agradecer aquela menininha de oito anos que nunca parou de acreditar em seus sonhos, e por causa dela e de muita gente que acreditaram em mim, hoje sei que tudo que passei foi para encontrar a minha família aqui, meu marido, meu filho, minha sogra, meu sogro, meus cunhados e cunhadas, que me aceitaram de braços abertos e me tratam super bem desde o dia que me conheceram.

Hoje moro aqui nos EUA, em agosto completo dez anos de EUA, ganhei uma família muito especial, e também não vejo a hora de visitar a minha no Brasil. Já faz mais de 6 anos que não volto, mas quem sabe depois dessa quarentena né =)

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