Elayne Simon

Paixão
Por Elayne Simon

Elayne Simon, conta sua história de paixão pelo SoftbolMeu nome é Elayne Cristina Frebel Simon e comecei a jogar com sete anos. Não me recordo ao certo, mas pelo o que a minha mãe diz, eu fui até o campo de trajes de banho, logo após a aula de natação, e comecei a catar algumas bolas, as pessoas estranharam uma criança sozinha e  perguntaram aonde eu morava. Minha casa fica em frente ao clube, então foram até meus pais pedirem permissão  para eu praticar o esporte que hoje tanto amo!

Elayne Simon, conta sua história de paixão pelo SoftbolComecei na posição de catcher (receptora), mas o Sensei (técnico) Milton Konno (Barão) percebeu que eu era muito grande e que seria melhor ser pitcher (arremessadora). Na época, eu treinava todos os dias pitching, no ginásio de esportes do Nikkei Curitiba, e no final de semana em campo com o time completo. Toda a infraestrutura que o clube tem hoje é graças á união dos pais, diretores e técnicos. É por esse motivo que o softbol se torna uma grande família.

Eu lembro que era uma das mais altas de todos os times, e a que dava mais death-ball (acertava as jogadoras adversárias), e como consequência disso, a grande maioria tinha medo de rebater porque meu tamanho assustava. A bola era rápida, mas o meu controle não era dos melhores.

Elayne Simon, conta sua história de paixão pelo SoftbolAos poucos fui aperfeiçoando as técnicas treinando todos os dias com o Barão e sempre aproveitando muitas clínicas de jogadores profissionais do Japão que vieram ao Brasil. No Campeonato Sul-americano, que aconteceu em Curitiba, eu olhava aquelas jogadoras da seleção brasileira e sonhava um dia jogar como elas. Esse foi o primeiro de muitos sonhos que tive no esporte.

A minha primeira seleção foi no ano de 2001, e foi inesquecível. Alguns babados, muitas risadas, boas lembranças, incontáveis broncas, ou seja, normal de uma seleção. Todas eram arteiras, mas sempre cuidando sempre da imagem do grupo e da seleção.

Elayne Simon, conta sua história de paixão pelo SoftbolNessa seleção eu ganhei muitas amigas, que continuam no meu coração, algumas ainda jogam, outras não e uma amiga em especial que tenho muitas lembranças boas dela não está mais entre nós. Você será sempre lembrada pela sua simpatia e seu jeito descontraído de ser Sara Silva.

Foi a Sara quem me apelidou de GURIA e as outras meninas adotaram o apelido.

Teve uma seleção que fomos para a Venezuela, e eu lembro que caí do beliche sonhando e gritando que iriamos vencer contra o Canadá, foi inédito tanta concentração e vontade, acho que todas ainda se lembram.

Ótimas jogadoras estavam na seleção; Cilla (Priscilla Okamoto); Juzão (Julianna Mihara); Pri (Priscila) Suzuki; Shimena e Cyntia Nakashima. Eu nunca havia pensado em jogar com elas. Essa seleção foi de raça, tenho muitas saudades!

Elayne Simon, conta sua história de paixão pelo SoftbolDurante as seleções em que tive o prazer de jogar agradeço ao sensei Higashi, que me acompanhou desde os 14 anos e sempre acreditou no meu potencial, seus gritos eram assustadores, mas ao mesmo tempo nos davam raça e união.

Eu não chegaria a uma seleção brasileira sem as meninas do Nikkei. Crescemos juntas, perdemos e vencemos. São muitas as lembranças e é isso que faz com que eu não pare de praticar o esporte. Agradeço de coração todas vocês, os técnicos, aos dirigentes e pais, que sempre nos propiciaram boas condições de viagens, jogos e treinos. Ao Sidiomar que sempre me apoiou e me ensinou muitas coisas no esporte um grande amigo para sempre.

Elayne Simon, conta sua história de paixão pelo SoftbolEm 2001, fui eleita pelo COB (Comitê Olímpico Brasileiro) a melhor jogadora do Brasil e isso me abriu oportunidades. Através da Sensei Nahoko, voluntária da JICA (Japan International Cooperation Agency) do Nikkei Marília, auxiliar técnica da seleção brasileira, eu e a Ana Lícia Chino, do Giants, conseguimos uma bolsa de estudos para estudar na Kyushu Joshi High School, um colégio da cidade de Fukuoka, Japão. A Ana sempre foi uma grande parceira de jogo, eu a considero como uma irmã.

Em menos de um mês estudamos apenas o básico da língua e fomos na fé e na coragem. Lá no Japão nos receberam muito bem e nós tínhamos um apartamento só para nós duas. Tomávamos café da manhã e jantávamos no hospital do dono do Colégio que estudávamos e vale ressaltar que ele também era o dono do “nosso” apartamento. Não era permitido cozinhar no local, então nosso almoço era a marmita do nosso técnico Hirashima ou ganhávamos um mimo dele e comprávamos almoço no colégio.

Elayne Simon, conta sua história de paixão pelo SoftbolNossa rotina começava as 08h30min no colégio onde tínhamos aula ate as  15h30min. Após a aula treinávamos todo dia até as 19hrs. No início íamos e voltávamos de carro com o técnico, mas depois ganhamos bicicletas e já nos virávamos sozinhas.

Eu e a Ana jogamos juntas só 1 ano, ela foi para a faculdade e eu continuei no colegial pois temos um ano de diferença de idade.

Elayne Simon, conta sua história de paixão pelo SoftbolNo meu segundo ano no Japão eu tive duas perdas: a primeira foi a minha querida avó que sempre torceu muito por mim, sempre esteve presente em todos os jogos, minha fã número 1. Não pude voltar, pois tinha o campeonato mais importante do ano entre os colégios do Japão o INTER HIGH SCHOOL. Foi um momento muito difícil, mas tive que ser forte e continuar meu sonho. A outra perda foi meu técnico Hirashima do colegial que teve um derrame logo após a minha formatura.

Nesse um ano que fiquei sozinha no colegial fui convocada para jogar na seleção de Fukuoka, o que seria um campeonato das províncias do Japão. Foi uma experiência incrível participar de uma seleção japonesa, as amizades conquistadas e o carinho dos pais são inesquecíveis. Igual à uma seleção brasileira .

Elayne Simon, conta sua história de paixão pelo SoftbolLogo depois disso, eu me formei e conquistei mais um sonho: entrar para um time semi-profissional. Fiz testes em algumas empresas e a SEIKO CORPORATION me aceitou como arremessadora do time. A minha função era apenas arremessar.

Fui contratada por 10 anos, mas como não sou descendente de japonês, teria que estudar para conseguir tirar o visto, era a minha única opção: ter uma formação e tentar tirar o visto logo após o término da faculdade.

Enquanto isso, o meu visto era de estudante renovado a cada dois anos. Os diretores de softbol da empresa escolheram o curso de Literatura Japonesa e comecei a estudar. A rotina era cansativa, pois eu era a única que teria que estudar, trabalhar e jogar.

Elayne Simon, conta sua história de paixão pelo SoftbolTodo dia eu acordava as 5 horas para correr 5 km , tomava meu missoshiro (sopa) com Gohan(arroz branco) e umeboshi (conserva) e andava de bicicleta por 30 min até a faculdade. Depois da aula, o time da empresa treinava ou trabalhava. Os treinos do time eram toda segunda, quarta e sexta no período da tarde e no sábado e no domingo o dia todo.

Quando não tinha treino do grupo, nós treinávamos por conta depois do trabalho até as 22hrs. Os treinos de final de semana eram jogos em cidades vizinhas. Toda semana tínhamos que fazer relatório de todo treino e entregar para a técnica. Nossa alimentação era balanceada, tínhamos um preparador físico e éramos controladas em tudo até o horário de retorno para o alojamento.

Elayne Simon, conta sua história de paixão pelo SoftbolNo semiprofissional aprendi muita coisa sobre o respeito entre jogadores mais novos com os mais velhos, não foi nada fácil, mas chegou um momento que eu me considerei japonesa só assim para compreender a cultura.

Após concluir o curso da faculdade eu não consegui tirar o visto por erro de comunicação dos diretores com a imigração. Disseram que o curso escolhido não estava dentro dos requisitos para a liberação do visto permanente. Então, meu contrato inicial foi cancelado e eu consegui visto de um ano como jogadora profissional.

Elayne Simon, conta sua história de paixão pelo SoftbolFoi um ano de desespero, muita pressão psicológica e no mesmo ano a Seiko subiu para a liga mais forte do Japão. Os treinos ficaram mais fortes e foram feitas várias concentrações. Foi muito desgaste emocional não conseguir tirar o visto e toda essa questão da devolução dos estudos em apenas um ano. Acabando o prazo eu iria retornar ao Brasil , mas eu tive uma pessoa especial na minha vida que me ajudou muito e estávamos juntos algum tempo e resolvemos casar para continuar no país.

Tive a opção de continuar jogando no profissional, pois teria um visto permanente após o casamento, mas o ano foi difícil, os objetivos mudaram e resolvi encerrar minha carreira profissional naquele ano.

Continuei a jogar em clubes com a Ana e a Sensei Nahoko, foram anos divertidos juntas. Consegui um bom emprego como tradutora na Docomo Telecomunicação (empresa de celular) e fiquei mais 2 anos, retornando ao Brasil em 2011.

Elayne Simon, conta sua história de paixão pelo SoftbolFiquei dois anos sem jogar, mas o amor ao esporte falou mais alto e hoje eu sou jogadora novamente. E agradeço todas as meninas da categoria adulta e do Nikkei que me ajudaram a realizar mais um sonho: o de ser campeã brasileira na minha categoria.

Sendo a única brasileira a jogar na empresa Seiko e a única sem descendência a jogar no semiprofissional do Japão, percebi que se você tem sonhos, amigos, força, fé e humildade, você consegue tudo nesta vida. Acredito que muitas brasileiras tenham esta capacidade e o Japão é um país seguro e a educação lá é excelente.

Elayne Simon, conta sua história de paixão pelo SoftbolA todos que fizeram parte da minha historia eu agradeço, pois eu não seria quem eu sou hoje no softbol. Gostaria agradecer aos meus pais Roseli e Vitor, meus “paitrocinadores”e incentivadores, que foram tão persistentes nos momentos mais difíceis da minha carreira.

Minha mãe foi quem sempre fez os uniformes do clube e continua fazendo até hoje. Eu acredito que toda essa dedicação seja por mim, para manter-me conectada ao esporte e ao clube.

Hoje trabalho com Estética, estou fazendo minha segunda faculdade, cursando Biomedicina e continuo com a preparação física diária para conseguir jogar e manter uma vida saudável. E estou muito feliz e realizada.

Gostaria que houvesse mais incentivo e apoio para o softbol brasileiro. Eu, Ana Lícia Chino e a Mika Someya abrimos portas para as atletas brasileiras começarem a atuar no exterior. Hoje em dia colegas de jogo conseguiram ir para os EUA e o nível do esporte só cresce e evolui, além, é claro, de propiciar uma boa bagagem de cultura para o resto da vida. Por isso ajudem a divulgar o softbol.

Meu último sonho era conseguir jogar nas Olimpíadas pelo Brasil, não foi realizado como jogadora, mas acredito que um dia esse sonho se concretizará com outras jogadoras com mais preparo e se eu puder ajudar e estar presente estarei sempre a disposição.

Agradeço muito ao meu técnico Barão pela sua persistência, paciência quando eu jogava bolas erradas, ou fazia algo de errado nos jogos e treinos, as suas broncas e castigos ainda estão guardadas na memória. Tudo isso faz parte do crescimento de um jogador que tem sonhos e não desiste. Acredito que o orgulho que damos á você seja grande e ainda vamos continuar a jogar juntos por um bom tempo.

Muito Obrigada.

(Fotos: arquivo pessoal da jogadora)