Chie Someya

Famílias
Por Chie Someya

Olá, eu sou a Chie, pronuncia-se Tie, ou Regina para alguns. Tenho 27 anos, sou natural de Atibaia e jogava pelo time da cidade, hoje em dia eu jogo pelo time de Marília. Para quem não me conhece, eu sou a mãe da Hana e se mesmo assim você ainda não me conhece, prazer em conhecê-lo.

Gostaria de dividir um pouco com vocês a minha vida no softbol, o que é praticamente a minha vida inteira, já que comecei a jogar com 7 anos de idade por influência das minhas duas irmãs mais velhas, Mika (34 anos) e Yuki (31 anos)que já praticavam o esporte.

Eu tive um infância normal, para quem pratica softbol, treinava 4 dias por semana e sempre que me convidavam para algum festinha nos finais de semana, eu sempre falava: “Não dá! Tenho Treino!”. Chegou uma hora que já não me convidavam mais. E como toda criança que vivia no campo, já me machuquei brincando, já quebrei o meu dente disputando pega-pega na frente da gaiola (área coberta de treinamento de rebatidas), e até hoje eu gasto com dentista por causa dele.

Um dos dias mais felizes da minha infância foi quando eu ganhei o meu primeiro uniforme. Fui participar de um jogo de T-ball, foi o primeiro da categoria no Brasil, até então o softbol começava já no Mirim. O torneio foi no campo do São Paulo, e eu estava muito ansiosa para viajar, seria a primeira vez que eu ia dormir fora com as meninas do soft; A ansiedade era tamanha, que arrumei a minha mala uma semana antes de viajar.

Aos 14 anos, tive meu esforço recompensado e fui selecionada para a minha primeira seleção brasileira, mas eu só levava bronca dos técnicos. Com 15 anos, perdi uma final de campeonato brasileiro que estava ganho, perdemos por um motivo muito bobo e eu chorei por uma semana inteira. Mas no ano seguinte, finalmente conseguimos o título do campeonato brasileiro.

Em 2007, eu estava entre as atletas que disputavam vaga no elenco da seleção que iria disputar os jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, mas, infelizmente, eu não consegui passar no último corte e novamente chorei por uma semana.

Em 2008, fui estudar e jogar por uma faculdade nos Estados Unidos. Antes de ir para lá, lembro que todo mundo falava: “Você vai para o Japão jogar softbol como as suas irmãs?” e eu sempre falava que não era isso que queria, não queria jogar softbol no Japão, eu não gostava muito do jeito que eles jogavam lá. Eu achava que no Japão era muito rígido e as pessoas não se divertiam jogando, sendo assim, eu gostava mesmo do jeito como é aqui no Brasil, onde não existe aquela coisa de Senpai (veterano) e Kohai (novato), além de que eu podia jogar e me divertir. Sendo assim, acabei indo para os Estados Unidos, onde eu a Vivian, a Guga (Juliana Shibata) e a Ninjja (Simone Suetsugo) fomos as primeiras a ir jogar nas faculdades.

O ano de 2008 foi muito marcante. Além de eu conseguir ir jogar em uma faculdade nos Estados Unidos, tive o privilégio de poder ir pra China assistir a minha irmã mais velha (Mika) jogar nas Olimpíadas de Pequim, representando a seleção do Japão. Se isso já não fosse o bastante, também presenciei um momento inédito: o Japão venceu os Estados Unidos na final e ganhou a medalha de ouro! Chorei de alegria no último out do jogo. Sem dúvida foi o melhor jogo de softbol que assisti na minha vida.

Hoje em dia, a Mika ainda continua no mundo do softbol, mas não como atleta. Ela se tornou treinadora de pitcher (arremessadora) no time onde jogava (Denso). No ano passado, no mundial que aconteceu em Surrey, no Canadá, eu tive a oportunidade de ver a minha irmã com o uniforme do Japão novamente. Porém, dessa vez ela fazia parte da comissão. E este ano ela fez parte da comissão japonesa novamente no campeonato mundial do sub19 que ocorreu na Flórida.

Os Estados Unidos é outro mundo comparado ao Brasil, é o paraíso para se praticar esse esporte fantástico, mas provavelmente pra qualquer esporte. Lembro quando jogávamos em outros estados ficávamos em hotéis, cada uma na sua cama e com as refeições todas pagas pela faculdade, sendo que todas feitas em restaurantes. Eu sempre fui acostumada à dormir em alojamentos e kaikans, com aqueles colchões fininhos que doíam as costas quando dormia. Vendo tudo aquilo pela primeira vez, pensei: “Não é a toa que os Estados Unidos sempre ganham um monte de medalha nas olimpíadas”. Nossa única preocupação era em jogar e, é claro, estudar.

Falando em Estados Unidos, foi nesse país maravilhoso que a minha filha, Hana, nasceu. Quando terminei a faculdade conheci o pai dela, estava tudo indo muito bem, dando tudo certo e em agosto de 2013 a Hana veio ao mundo. Mas, infelizmente, após o seu nascimento as coisas começaram a não dar muito certo com o pai da minha filha, então em abril de 2014 voltei para o Brasil com a Hana. Não pretendo falar sobre coisas negativas, mas posso dizer que essa foi uma das fases mais tristes da minha vida.

Com o nascimento da Hana, parei de jogar soft e ficava em casa tomando conta dela, foi um período de muita insegurança, estresse e muita tristeza. Juro para vocês que, por muitas vezes, achava que fosse o fim do mundo. Mas, graças à ajuda da minha família e amigos, as coisas foram mudando pouco a pouco. Pode parecer clichê, mas eu devo tudo a eles.

Sei que não é do conhecimento de vocês, mas, eu não tenho parentes no Brasil, então considero como família as pessoas do softbol e do beisebol. Posso falar que sobrevivi, aliás sobrevivemos (eu e a Hana) graças a Deus e ao carinho que recebemos  de todos ao nosso redor. Não vou mentir, não foi nada fácil, mas acredito que tudo em nossas vidas tem um propósito.

No final de 2014, ia acontecer um torneio internacional em Arujá, nas dependências do Nippon Blue Jays e a seleção brasileira estava montando um time para participar, nessa altura da minha vida eu não pensava mais em seleção. Mas o Sensei (técnico) Higashi me chamou para participar, já que estava faltando atletas para completar o grupo. E lá fui eu participar, e não é que consegui jogar bem! Após isso comecei a pensar: “Será que se eu voltar a treinar forte, eu consigo voltar para a seleção?” O Brasil já estava classificado para os Jogos Pan-americanos de Toronto em 2015.

Pensei muito se valeria a pena treinar firme por mais meio ano, e tentar ir jogar um Pan, que era meu sonho desde 2007. O real motivo que me fez pensar era por causa dos gastos que teria com os treinos e porque não era apenas a Chie, eu tinha a minha filha para sustentar. E, é claro, tive aquele medinho de novo, aquele medo de treinar firme e depois ser cortada e ficar chorando por mais uma semana.

Mas, a Vivian Morimoto, me falou algo muito legal: “Pelo menos tenta Chie! Se você tentar e não poder ir é uma coisa, mas se você não tentar você vai se arrepender e ficar pensando em como poderia ter sido se você tivesse tentado”.

Então, eu resolvi tentar. Com a ajuda de muitas pessoas, da minha família e amigos eu comecei a treinar firme novamente. Passou o tempo e chegou o dia em que iriam divulgar a lista de convocado. E para o meu espanto, o meu nome estava lá: “Regina Chie Someya”. Não preciso falar que pulei de alegria, fiquei muito contente por ter passado, mas principalmente por ter tentado.

Um pouco antes do Pan, o Brasil foi participar de um torneio internacional em Porto Rico, para se preparar para os Jogos de Toronto. De início, esse torneio não iria acontecer pois muitas seleções desistiram em cima da hora, mas a comissão organizadora conseguiram uns times locais e assim pudemos treinar;

No terceiro jogo, se não me engano, eu estava jogando de Center Field e veio uma bola rasteira muito fácil, corri para a bola para parar e para minha infelicidade torci o meu pé. Eu não tinha mais tornozelo, tinha uma bola de tênis no lugar dele. Comecei a chorar, mas não era de dor, era por saber que seria bem difícil para eu ir para o Pan junto com as meninas e o único pensamento que vinha na minha cabeça, era de que eu seria cortada novamente.

Quando cheguei ao Brasil fiz uma ressonância magnética e o diagnostico foi que eu havia rompido um ligamento, além de mais outras coisas. Obviamente não conseguiria me recuperar a tempo e consequentemente fui cortada da seleção.

Mas como sempre, eu acreditei que tudo em nossas vidas têm um propósito. Não posso dizer que foi graças ao corte, mas por ter conseguido ficar no Brasil, tive tempo para me empenhar em meu trabalho e consegui ser promovida. Graças a isso percebi que gostava muito da minha profissão: ser professora.

Hoje em dia moro em Marília com a minha filha e sou professora de soroban (ábaco japonês). E consegui esse emprego graças a minha amiga Samira Tanaka. Quando voltei ao Brasil e comecei a procurar emprego estava muito difícil achar um. Muitos lugares tinham interesse no meu currículo, mas logo que eu falava que tinha uma filha pequena, não gostavam muito da ideia.

A Samira já havia me chamado para ser professora de soroban, mas eu não tinha a mínima noção do que era o soroban e recusei a proposta. Em junho de 2015, eu ainda estava desempregada e ela me perguntou novamente se eu não gostaria de ensinar soroban. Dessa vez não pensei muito e resolvi começar essa jornada. Aprendi muito com o soroban e ainda continuo aprendendo. Eu acho incrível esse instrumento de cálculo e realmente queria muito que eu tivesse conhecido o soroban na minha infância.

Enfim, graças ao softbol “perdi” todas as festinhas da escola, quase todos os finais de semana e continuo perdendo. Mas se eu pudesse ter uma vida sem softbol, eu não gostaria de viver essa vida. Claro que não foi fácil, principalmente depois que a Hana nasceu. Mas graças a tudo que eu passei, eu aprendi um novo significado da palavra amizade.

Nossos amigos não servem apenas para se divertir e rir junto. Na hora que eu chorava, quase todos os dias, e achava que realmente era o fim do mundo, eles estavam lá me chamando pra sair e me buscavam e me traziam de volta para a minha casa mesmo não sendo caminho para a casa deles. Tiraram férias na mesma época dos jogos da minha seleção para poder tomar conta da Hana por mim.

Meus amigos aceitaram, eu e a Hana como parte da família deles. Receberam-nos com muito amor e carinho para morar junto com eles. Tomaram conta da Hana para eu poder ir tranquila para os treinos da seleção. Enchem a Hana de docinhos e presentes. Eles se preocupam e estão sempre nos ajudando. Ai como eu amo os meus amigos. Sempre agradeço a Deus, por ter colocado pessoas tão boas ao meu redor.

Quanto a minha família, eu gostaria de pedir desculpas aos meus pais, por ter pensado que iriam me rejeitar quando contei que eu estava grávida sem ter casado. Peço desculpas por ter duvidado do amor de vocês.

Quando finalmente contei a minha mãe que estava grávida ela disse: “você deve ter sofrido tanto guardando isso só pra você! Não precisa se envergonhar de estar grávida. Ter um filho é algo maravilhoso!” Minhas irmãs, mesmo morando no Japão estão sempre nos ajudando e se preocupando comigo e com a Hana. E meu pai que chorou na última vez que fomos visitar eles. A Hana deu um abraço para se despedir e ele começou a chorar.

Já pensei em como teria sido a minha vida se estivesse morando lá nos Estados Unidos com o pai da Hana. Mas, eu acredito que era para ter sido assim, do jeito que está. Amo meus amigos, minha família e gosto muito da vida que tenho agora. Acredito no caminho que Deus preparou para mim.