[Histórias] Camila Kirihara

Histórias - Camila KiriharaMeu nome é Camila Kirihara, mas a maioria no softbol me conhece por “Caki”. Esse apelido foi criado quando entrei no Cooper. Eram muitas “Camilas”. Em um momento chegaram a ser 3 em uma mesma categoria, então cada uma recebeu um apelido e o meu acho que foi o que mais “pegou”, graças a Julianna Mihara. Caki é a junção das primeiras sílabas do meu nome e sobrenome.Merch 2020Histórias - Camila KiriharaMinha história no softbol começa com meu pai. Ele jogava beisebol e lutava judô. Até que o Sensei do judô falou: “Você tem que escolher, não está se dedicando em nenhum dos dois esportes!” Meu pai não teve dúvidas, largou o judô.

Quando eu tinha 8 anos e a minha irmã Bel tinha 4 anos, ele decidiu que suas filhas praticariam o esporte que ele tanto amava. Eu tenho que ser sincera, eu não gostei! Depois do primeiro treino falei que não queria mais ir. Meu pai disse “Vocês vão frequentar os treinos por um mês, se mesmo depois desse tempo vocês não quiserem ir, aí então tudo bem, vocês não precisam jogar”. Mas aí você começa fazer amizade, começa a gostar de brincar de terra e, sem perceber, tá adorando viver naquele círculo social.

Histórias - Camila KiriharaComecei jogando pelo Blue Jays. Joguei de 1994 até 2000. Foram apenas 6 anos, mas foram tantas fases diferentes. Lembro de brincar de terra, jogar taco e futebol nos intervalos dos treinos, lembro dos campeonatos de karaokê dentro dos ônibus de viagem – cantando Xuxa e Sandy & Jr. Lembro do meu pai carregar quase o time todo no Marajó Cinza dele e de todo mundo ir dormir na minha casa – não sei que missão era mais difícil, entrar todo mundo no carro ou no quarto. Mas era como coração de mãe, cabia todo mundo! A gente dançava “É o tchan”, fazia desfile de moda… foi uma infância muito boa!

Histórias - Camila KiriharaMeu primeiro título de campeã veio junto com meu primeiro troféu: Melhor Jardineira Direita. Lembro da minha mãe gritando “Camilaaa, vai bola aí!!”. Minha mãe Terezinha sempre foi muito torcedora e sempre presente. Aprendeu a anotar para ajudar meu pai na parte tática, ajudava na cozinha, gritava na arquibancada… sempre encontrava alguma cornetinha, apito ou chacoalho em casa e mostrava “Bom para levar na torcida, né?”.

Ah! Não posso esquecer da vez que fomos no programa Bom Dia & Cia da Eliana, no SBT. Foi demais! Lembro do Melocoton perguntando para a Elisa “Porque você usa essa gaiola na cara?”, ela foi com a máscara de catcher. E minha irmã no dia virou a xodó da Eliana, pois ela era a mascotinha do time.

Histórias - Camila KiriharaDe Jardineira Direita eu fui promovida à Catcher. Como? Meu pai era o técnico e perguntou “Quem quer ser catcher?”, pois as meninas que jogavam nesta posição tinha subido de categoria. Claro que ninguém levantou a mão. Todo mundo nesta idade queria ser pitcher e eu também. Foi quando aconteceu o que eu temia, virei catcher! Quem mais ele poderia “forçar” a aceitar? Fiquei anos jogando nesta posição e confesso que preferia rebater!! Rs Mas não podia desrespeitar a decisão do meu pai.

Histórias - Camila KiriharaFalando em rebater, considero que fui uma boa rebatedora, mas isso nem sempre foi verdade. Eu sou destra e comecei a rebater desse lado. Desastre total! Na época treinávamos na garagem da casa da Sissa Ichitani (gratidão Tia Glorinha e Tio Mamoru) e o Sensei Melão disse ao me ver rebater “Mas é muito ruim! Não tem jeito não!”. Fiquei mega decepcionada. Foi quando ele disse, vai para o outro lado! Foi assim que virei canhota para rebater. E acho que ele estava certo, eu me sentia mais a vontade do lado de lá.

Histórias - Camila KiriharaMais tarde, tive que escutar do Sensei Melão “Agora tá melhor né? Como você corre devagar, melhor que seja canhota, pelo menos está mais perto da primeira base na hora de correr”. Gente, que delicado! kkkk Mas eu sabia que era verdade e uma vantagem. No começo achava o Sensei Melão meio carrasco, até que um dia, quando eu estava magoada pelas broncas, ele disse “Se eu xingo, grito, pego no pé, é porque acredito no seu potencial. Tem que ficar preocupada o dia que eu parar de gritar” – levei isso como conselho de vida!

Agradeço todos os senseis que passaram na minha época de Blue Jays: Hamamoto, Yoshiaki, Melão, Nilton, Ihy, Nelson, Maritza e… peço desculpas, devo ter esquecido algum!

Histórias - Camila KiriharaA desvantagem de ser filha do técnico foi a de virar catcher sem mesmo querer. A vantagem era que eu nunca faltava aos treinos. E, parecido ao método Kumon, por repetição fui ficando boa. Eu treinava todos os dias! Comecei batendo grão de bico na garagem do prédio. É claro que aquele barulho irritou os vizinhos e tivemos que pensar em outra coisa. Eis que meu pai chega com uma bola medicinal! Os vizinhos reclamaram, de novo. Foi que descobri que lá na cobertura do prédio era vazio e a porta que dava acesso a parte externa era espelhada. Comecei a virar bat olhando meu reflexo, conseguia ver os erros e o que tinha que melhorar.

E a recompensa veio! Bati meu primeiro home-run. Foi em Atibaia. Depois dele vieram outros. Eu sempre gostei mais de rebater!

Histórias - Camila KiriharaOs anos no Blue Jays foram importantes, foi onde vivi minha infância e cheguei na fase da adolescência. Conheci muitas pessoas legais! Algumas delas perdi contato, outras converso quando encontro, algumas sei como estão pelas redes sociais e outras eu mantenho amizade até hoje. É legal ver as meninas casando, tendo filhos, vivendo em outro país, sendo bem sucedidas em seus trabalhos.

Recentemente fomos ao Show do Sandy & Junior reviver a infância que tivémos. Lembrar dos momentos cantando no carro, no onibus, no videoke, no treino ou em qualquer lugar.

Amizade boa é para vida toda!

Histórias - Camila KiriharaEm 2001, decidimos mudar de time. Recebemos convites de vários times. Meu pai escolheu o Coopercotia. No começo achei que não tinha sido uma boa escolha, depois eu vi que foi A MELHOR ESCOLHA! No mesmo ano mudei de escola também, foi um ano cheio de mudanças!

Eu tinha acabado de subir de categoria, estava no júnior. No primeiro dia de treino no Cooper, juntaram todas as categorias: júnior, juvenil e adulta. Eu estava bem confortável com as meninas da minha categoria, elas pareciam muito gente boa! Mas achei que não ia me dar bem com as meninas mais velhas, algumas pareciam não ir com a minha cara, outras pareciam metidas. Depois de um tempo, confirmei que algumas não iam mesmo com a minha cara, mas que bom que TODAS NÓS ESTÁVAMOS ERRADAS!

Histórias - Camila KiriharaJá comecei a mudar de ideia no primeiro treino. Corríamos ao redor da quadra de futebol e havia muito musgo no chão. Levei um tombo e fiquei com a calça toda verde. E a calça do uniforme era de que cor? Branca! Pensei, “Pô, no primeiro treino você cai?”. As meninas super educadas me perguntaram se estava tudo bem, me ajudaram a levantar e, claro, caíram na gargalhada depois. Acho que ajudou a quebrar o gelo inicial. Foi no Cooper que ganhei minha primeira festa surpresa! Foi na casa da Mari Abe, amizade que mantenho até hoje!

Meu pai assumiu as categorias como técnico junto com o Sensei Mario Abe. A tia Beth Amano era nossa manager e anotadora. A July Hirata era nossa capitã. QUE TIME! Treinávamos sábado dia inteiro e domingo meio período, mas não era nenhum esforço. A GENTE SE DIVERTIA! Claro que com a July de capitã a gente tinha que se controlar, mas nosso treino era puxado no esforço, mas leve no espírito! A gente dava risada o tempo todo, mas ao mesmo tempo com foco e sempre incentivando umas as outras.

Histórias - Camila Kirihara Claro que às vezes rolava aquela preguiça de treinar, mas lembro de ver a Yoko vindo de Atibaia e a July vindo de Presidente Prudente toda sexta para treinar e pensava “Ok, você tá com preguiça, mas não é justo com elas que vem de tão longe, então treine por elas pelo menos”. E no final, acho que muita gente tinha a mesma “dor na consciência”. Para mim, a soma disso foi o segredo do sucesso desse primeiro ano no time: COOPERCOTIA CAMPEÃO BRASILEIRO CATEGORIA ADULTA 2001. Havia muito tempo que o Cooper não conquistava o título de Campeão Brasileiro. E desbancamos times muito bons e favoritos. Ninguém acreditava. Mas a gente acreditava e isso era o suficiente! Eu e meu pai juntos, campeões brasileiros pela primeira vez!

Histórias - Camila KiriharaLembro que fui rebatedora designada neste campeonato. No sábado, TODAS as meninas rebateram muito, menos eu! Conversando com meu pai, desabafei: “Pai, eu estou no time só para rebater e não consegui nenhum hit hoje” e então ele, sempre conselheiro, me confortou: “O papel da rebatedora designada é rebater quando precisa. Hoje não precisou, pois o time todo rebateu bem. Amanhã os jogos serão mais competitivos, quando precisar, você vai fazer seu papel”. E ele estava certo! Na semi-final foi com a minha rebatida que entraram os primeiros pontos. Ele até guardou a bola do jogo para me dar e ao entregar falou “Não disse? Guarda de recordação, você merece!”. ❤ Eu tive 100% de aproveitamento nas rebatidas no domingo, com certeza as palavras do meu pai foram uma injeção de ânimo e confiança!

Histórias - Camila KiriharaA final contra Marília foi EMOCIONANTE e acho que todas do time lembram como foram os minutos finais da partida. O jogo estava na abertura do último inning. Placar Cooper 4 x 2 Marília. Todas as bases cheias. Uma eliminação. A corredora da terceira base era a mais rápida do time adversário. A gente sabia que ia ser difícil segurar de zero com essas condições. A rebatedora de Marília era uma das melhores do time. A batida foi um fly, lá na July que estava de jardineira central e colada na cerca do campo. Ela pegou no ar, conseguindo mais uma eliminação e arremessou a bola para o home. Para mim ela usou toda a força que ela tinha e que não tinha. Essa cena passou em câmera lenta para mim. A bola deu um pingo e chegou certinha na mão da nossa catcher. E ficou aquela dúvida, out ou safe? Safe ou out? O juiz era o tio Fernando Matsumori e parece que ele demorou uma eternidade para decidir. E então, ele ergue a mão! Out! Cooper campeão! Gente, como era boa essa sensação! O grito de comemoração saiu da alma!

Histórias - Camila KiriharaVale lembrar que neste dia, entre a semi-final e a final, meu pai teve um “treco”. Todo mundo achou que era algo no coração dele. Percebi que ninguém queria que eu soubesse e estavam tentando esconder de mim. De repente, descobriram o que era e estava tudo bem! Era câimbra! Era tanta dor que ele não consiguia explicar! Tudo porque a Camila Amano pulou nas costas dele para comemorar a vitória na semi! Kkkkk Ufa!!! Foram muitas comemorações, principalmente pós título!

No começo do texto eu comentei que não gostava muito de ser catcher. Quando fui para o Cooper haviam duas na posição além de mim. Yes! Pude jogar na posição que mais gostava, terceira base.

Histórias - Camila KiriharaEm 2003, fui convocada para minha primeira seleção brasileira. Participamos do Campenato Sulamericano em Guayaquil, no Equador. O time era composto pelas atletas de 1986 e 87.

Como eu não tinha sido convocada para a seleção no ano anterior, não imaginava que eu seria escolhida para ser capitã. Foi muita responsabilidade, pois era minha primeira convocação e eu não tinha experiência vestindo a camisa da seleção. A tia Elza e a tia Inês foram importantes para eu desempenhar bem o papel, assim como a Nilze, que foi super generosa me apoiando no “cargo” que eu havia assumido.

Histórias - Camila KiriharaO Sensei Ariki era o técnico e lembro que em um dos treinos ele veio falar comigo. “Você sabe que rebate bem né? Mas na defesa tem mais duas pessoas disputando a vaga com você e elas são bem mais rápidas… Você quer ser titular? Então você vai ter que se virar primeira base!”. E foi assim que troquei de posição, no meio de uma seleção. E no final foi muito bom, porque no Cooper também era bom ter uma pessoa na primeira base, pois a Fefa, a Camila e a Cintia precisavam descansar quando não estavam arremessando e até então não tinha ninguém para jogar no lugar delas.

Para minha surpresa, ganhei troféu na nova posição! Melhor primeira base, Melhor empurradora de carreiras e Melhor rebatedora. Valeu a pena todo suor dedicado. Eu treinava terça, quinta, sábado e domingo no Cooper e de quarta e sexta em casa.

Histórias - Camila KiriharaAproveito mais uma vez para agradecer todos os tios, tias, amigos e familiares que compraram a famosa “Rifa da Seleção”. Sem a ajuda de vocês esse sonho não teria se realizado. A rifa ajudava a custear os gastos na viagem e como vendemos todas, meus pais não precisaram se apertar financeiramente para me mandar para o Equador. Em especial, agradeço o Tio Roberto Kurokawa (pai da Tati) e ao tio Mori Miyahira (pai da Sica). Lembro muito bem que eles foram os que mais “investiram” no meu sonho! =)

Histórias - Camila KiriharaDepois disso, vieram outros torneios, campeonatos, meninas parando de jogar, novinhas chegando na nossa categoria. Foram anos de muito aprendizado, muita alegria, muito suor e dedicação. Tivemos outros técnicos, conquistamos novos títulos. Cada pessoa e cada ano foi especial e marcou de maneira diferente a minha vida.

Agradeço ao Ge Tanaka, Marutaka, Lambari, Kaba, Fedo, Jun, Robson, pela dedicação ao serem nossos técnicos. Obrigada aos pais que sempre estavam na torcida, que acordavam cedo, trabalhavam na cozinha, ajudavam nas festas para arrecadar dinheiro para o departamento (Famílias Nitta, Hiraoka, Tanaka, Goto), aos árbitros que nos representavam nos campeonatos (tio Fe, tio Kunitake, tio Eto, tio Matuoka, tio Joao). As managers e anotadoras que sempre nos acompanhavam (tia Nina, tia Marisa, tia Cecilia, tia Cida). COM CERTEZA ESTOU ESQUECENDO ALGUM NOME!

Histórias - Camila KiriharaEra difícil me dedicar ao trabalho, à faculdade, ao inglês e aos treinos. Mas eu seguia na rotina puxada conciliando tudo, até que em uma semi-final de Campeonato Brasileiro me machuquei no primeiro lance do jogo. Distensão muscular na coxa. O técnico adversário era o Paca e ele me carregou até a ambulância – obrigada! (Ainda bem que eu era mais magra nessa época!) kkk. Percebi que não dava para fazer tudo que estava fazendo e decidi parar de jogar. A decisão foi difícil, pois em breve começariam as seletivas para o Pan no RJ e eu sentia que tinha alguma chance. Mas eu sabia que após a lesão o trajeto seria mais longo e em um país como o Brasil onde o esporte infelizmente não tem os subsídios que países como Estados Unidos oferecem, viver de esporte não era uma opção. Segui acompanhando o time, mas da arquibancada! Claro que as saídas com as meninas e as baladas também continuaram. Cheers!

Histórias - Camila KiriharaApós concluir a faculdade e aproveitar as merecidas férias após 6 anos trabalhando e estudando sem parar (vida de estagiário na lei antiga era osso!), resolvi voltar a jogar. Mesmo voltando bem, sabia que não era a minha melhor forma. Mas era legal estar com as meninas, sentir o clima da competição. Mas aí veio outra lesão, dessa vez na minha irmã. As duas já haviam se machucado sério. Apesar da experiência, as novinhas estavam bem e conseguiam dar conta do recado. Com a gente saindo, o time não acabaria. Conversamos bastante e resolvemos parar.

Histórias - Camila KiriharaDá muita saudade! Muita gente pergunta, porque eu não jogo os torneios mistos, de ladies ou de veteranos para matar a vontade. A resposta é que prefiro ter a lembrança de quando eu estava na minha melhor forma. Não consigo aceitar a ideia de jogar mais ou menos. De sentir que eu já joguei muito melhor no passado. Hoje prefiro estar nas arquibancadas!

Histórias - Camila KiriharaMuitos chefes que passaram na minha vida profissional mencionam qualidades como liderança, espírito de equipe, empatia e outros atributos que desenvolvi através do esporte. Os anos no softbol foram incríveis e me formaram como pessoa e também como profissional. Recomendo à qualquer um a prática de um esporte coletivo!

Samy, agradeço a oportunidade de dividir minha história no Softbol. Acho que tem muita coisa que escrevi aqui que ninguém sabia. Principalmente a parte de ser catcher!

Game set!

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