Barbara Woll

Superação
(por Barbara Woll)


Meu nome é Barbara Woll, tenho 26 anos, sou de Curitiba-PR e atualmente moro em Marianna, na Flórida-EUA. Sou atleta da Equipe Chipola Softball, atuo pela Seleção Brasileira adulta e pelo Central Glória, um clube da minha cidade.

Conheci o softbol quando tinha apenas 10 anos. Uma família de japoneses que moravam próximos de onde eu morava, essa família era cliente no salão da minha mãe, que era na nossa casa. Eu me apaixonei pelo esporte no momento em que comecei a treinar, estar em campo era um bom motivo para poder sair de casa aos finais de semana.

Cresci em um ambiente desestruturado, até os meus 06 anos de idade,  pelo fato de meu pai ter sido usuário de drogas. Ele era uma pessoa muito boa, nos ensinou a ter respeito pelo próximo, a ter caráter, se sou quem eu sou hoje é graças a meus pais. Porém, os vícios são capazes de destruir uma família. Quando ele chegava em casa eu tinha que estar lá, a casa deveria estar toda arrumada e se, por um acaso, não estivesse era motivo para me bater de forma não muito agradável, isso por conta do uso químico, ele se tornou uma pessoa muito explosiva, e isso acontecia até mesmo por motivos bobos. Meus irmãos mais velhos presenciaram isso mais do eu.

Minha mãe sempre foi mais ausente por conta do seu trabalho, quando criança não entendia, mas graças a ela, a sua força de vontade e dedicação pela família eu pude continuar no softbol.

Uma das coisas que mais marcaram a minha vida foi quando meu pai faleceu. Eu estava para completar 12 anos e meus pais estavam quase se divorciando, pois havíamos descoberto que meu pai teve uma filha folha do casamento.

Em meio à todo esse transtorno, sem entender direito o que estava acontecendo, eu fui jogar meu primeiro torneio oficial de soft em Ibiúna, ganhei meu 1º troféu individual, foi uma alegria e não via a hora de voltar para casa para mostrar minha conquista para meus pais, mas como chegávamos de madrugada das viagens e eles estavam dormindo, tive que esperar para mostrar no dia seguinte.

Meu pai saiu de casa cedo, não tive a oportunidade de falar com ele, e percebi que ele havia comprado uma bicicleta,** como toda criança, eu queria brincar com a bicicleta nova, minha mãe havia me alertado para eu não mexer na bicicleta, pois meu pai iria brigar comigo. Não escutei seus avisos e enquanto eles trabalhavam eu fui brincar com a bicicleta. Quando meu pai retornou e percebeu que eu havia mexido na sua bicicleta começou a me bater sem parar.

Minha mãe precisou me tirar a força de casa e fomos socorridas por uma vizinha, onde passamos a noite. No outro dia, voltamos para casa e minha mãe foi abrir o salão e eu iria para a escola, mas, para nossa surpresa, meu pai ainda estava em casa, na época ele fazia faculdade de filosofia pra manhã, e trabalhava de tarde. Nós achamos estranho, e ficamos assustadas ao mesmo tempo. Ele disse que precisava estudar para suas provas, por isso estava em casa, pediu para que minha mãe não abrisse o salão e tirasse o dia para fazer algo fora de casa.

Fiquei parada na frente dele com vontade de abraçá-lo, mas fique com medo de dizer isso e fui para escola. Quando estava na última aula me chamaram na secretária, chegando lá me informaram que meu pai havia tirado a própria vida. Se isso já não fosse ruim o suficiente, ficou ainda pior. Minha mãe sofreu muitos anos de depressão, não conseguindo trabalhar. Foi um dos momentos mais difíceis, já que por conta disso chegou a faltar comida em casa, e contas ficaram atrasadas.

Não conseguíamos arcar com as despesas da casa, meu irmão Germano foi internado por causa de drogas e o Hugo já não morava mais conosco, passou no vestibular para oficial da PM, ficando apenas eu e minha mãe.

Aos 12 anos ajudava a minha mãe em casa, aos 16 ela já não precisava me sustentar. Aprendi a fazer bombom e comecei a vender na escola, foi a forma que encontrei para não precisar parar de jogar, se eu tivesse que trabalhar teria que parar de estudar e jogar e não era isso que queria para minha vida.

O que me motivou à não largar tudo, naquela época, foi o convívio com pessoas com uma estrutura familiar melhor que a minha, pessoas que tinham um estudo melhor e uma condição financeira melhor. Vendo esses exemplos, busquei uma qualidade de vida melhor.

Conseguindo ganhar o meu dinheiro, comecei a comprar todas as coisas que eu precisava, além dos meus materiais para o softbol, até esse momento eu utilizava matérias usados. Cresci querendo mudar a situação de vida que sempre tivemos em casa, convivi com as famílias das minhas amigas de campo, onde aprendi muita coisa. Aprendi a ter foco, traçar meus objetivos de vida e correr atrás dos meus sonhos.

Meu sonho sempre foi de jogar na seleção brasileira. Em 2007 aconteceu a primeira seletiva para a minha idade, era para o sul-americano sub-17, fiz a seletiva, mas não consegui passar. Não desisti, continuei treinando e em 2011 finalmente realizei meu sonho de vestir a camisa do Brasil, fui para Cartagena, Colômbia, participar de um campeonato sul-americano adulto.

Após isso participei de um intercâmbio na Argentina, fui campeã invicta, de mais dois sul-americanos (2014-2016), sendo vice-campeã nas duas edições. Realizei o sonho de praticamente todos os atletas, participando dos Jogos Pan-americanos de Toronto em 2015.

Em 2011, ganhei uma bolsa de estudos para jogar nos Estados Unidos, mas por minhas condições financeiras tive o meu visto negado cinco vezes. Era meu sonho jogar no país do softbol e eu acabei desistindo dele.

Mas, em 2014, minha vida começou a mudar de forma positiva. Visto tudo que estava acontecendo, entreguei minha vida para Deus. De início não foi uma transformação fácil, mas consegui me firmar no caminho Dele em 2016. Na época eu estava muito infeliz, estava cursando faculdade de direito e trabalhando na área, mas não era isso que eu queria para a minha vida, para falar a verdade o tempo estava passando e eu não sabia o que realmente queria.

A única paixão que queimava forte em meu peito era à de jogar. Infelizmente, aqui no Brasil, não conseguiria me sustentar com o esporte. Foi nessa época que fiz um propósito com Deus, eu iria para a torre de oração da minha igreja todos os dias para descobrir o meu propósito de vida. Alguns dias depois, um amigo da igreja falou que havia sonhado comigo e no sonho eu iria para duas viagens em 2016 e na volta da segunda arrumaria as minhas malas e iria embora para outro país.

Foi nesse momento que tive a certeza que deveria tentar mais uma vez a bolsa de estudos. Diferente de 2011, desta vez eu não apenas queria, eu estava preparada para ir e viver os sonhos de Deus para minha vida.

Antes de tirar o visto, compartilhei a história do meu amigo  com minhas companheiras de seleção e por incrível que possa parecer aconteceu exatamente como ele previu. Participei do Sul-americano e posteriormente do Mundial de Softbol no Canadá e na volta fui tirar meu visto (vale lembrar que eu ainda tinha a mesma condição financeira e 5 vistos negados no meu histórico), e desta vez foi aprovado. Participei de duas viagens e após a segunda arrumei as minhas malas e fui morar em outro país.

Atualmente eu tenho uma bolsa de estudos integral em uma das melhores faculdades dos Estados unidos, ou seja, estou morando e estudando com tudo pago, para poder fazer o que eu amo fazer: jogar softbol.

Todos esses acontecimentos e transformações só foram possíveis por eu ter entrado no meio do esporte, por todas as adversidades da vida que me tornaram mais forte, por toda educação que meus pais me deram mesmo diante de tantas dificuldades que conseguimos vencer juntos, e principalmente graças a Deus, pois tudo na vida acontece por uma razão, e se não forem os dias de tempestades jamais aprenderemos a ser fortes. Hoje, toda vez que a vida tenta me derrubar estou preparada. Então, sempre que passar por dificuldades pense que é passageiro e é seu momento de crescimento, amadurecimento.

Apesar das dificuldades nós não devemos desistir, devemos correr atrás dos nossos sonhos, nada é impossível para aquele que acredita. Hoje minha vida está bem melhor, minha mãe começou a frequentar a minha igreja e conseguiu parar de fumar e beber, vícios que adquiriu após o suicídio do meu pai, e ela jamais desistiu. Minha mãe, meus irmãos, minha família sempre serão minha inspiração, eles com certeza são as peças fundamentais que me ajudam a chegar onde estou.

Deus preparou tudo para que eu pudesse realizar meus sonhos da forma mais tranquila e tenho certeza que muitas coisas boas ainda estão por vir, isto é apenas o começo. O esporte e a fé não escrevem apenas histórias, eles transformam vidas. Deus abençoe à todos.

“Um grande futuro só pode ser escrito a partir de sua história.” (Milagres –  Mudanças Internas Resultados Eternos. Marcelo Bigardi).

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