Ayumi Shiroma

Meu nome é Fernanda Ayumi Shiroma, tenho 21 anos e comecei a jogar soft com 6-7 anos (2003). O começo da minha trajetória no soft foi graças a uma amiga, que hoje é uma irmã pra mim, Andressa Aoki. Conheci a Andressa em 2003, entrando na primeira série e ela convidou eu e mais uma amiga, Amanda Ishii, para jogarmos soft pelo Nikkei Curitiba. Fomos ao nosso primeiro treino juntas, eu e a Amanda, e desde então estamos jogando pelo mesmo time.

O engraçado desse começo é que minha mãe, Tchay, jogou pelo Glória quando era mais nova e, por motivos pessoais, parou de jogar e não queria que eu entrasse nesse “mundo”. Por obra do destino, cai de paraquedas, junto com minha mãe, no clube adversário ao qual ela pertenceu hahaha

Em 2005, participei do meu primeiro campeonato brasileiro na categoria mirim, fui como reserva, claro, só pra acompanhar as meninas de 1993, que eram o time favorito naquele ano. Consequentemente, vivenciei, pela primeira vez, a emoção de ser campeã brasileira. Dizem que nesse ano, o mirim do Nikkei venceu todos os campeonatos, levando todos os troféus transitórios para casa.

Até que em 2006, no meu primeiro ano como jogadora do mirim, apesar de não ser oficialmente da categoria, fomos devolvendo cada troféu conquistado pelas meninas do ano anterior. Nosso time era novato, não tinha nenhuma jogadora excepcional. Era um time pequeno, muito fraco em comparação aos grandes times desse ano. E por cada troféu transitório devolvido, tomavámos uma mijada (bronca) das mais velhas quando voltavámos pro Nikkei. E assim foi, até conseguirmos, de maneira surpreendente, ser campeãs brasileiras novamente, levando o bicampeonato pra casa.

Em 2007, nosso time manteve boa parte da formação de 2006 e foi o ano da minha estreia como pitcher. Lembro que mais ou menos nessa época, as meninas do time fizeram uma reunião pra me tirar do time, não lembro o por quê, mas lembro que não me queriam mais no time (rs). Apesar disso, conseguimos o tricampeonato brasileiro, ficando com o troféu transitório em casa, definitivamente.

Em 2008, meu último ano de mirim, foi um ano inesquecível. Ganhamos todos os campeonatos, repetindo o feito das meninas de 1993. Nosso time era um dos favoritos, junto com o Nikkey Marília. Nesse ano, o campeonato brasileiro foi em Curitiba, a pressão era grande. A final foi como esperado, contra o Marília e foi um jogo absurdo. Ganhamos de 1×0, por uma vacilada do outro time (a Mari Ribeiro deve lembrar bem disso rs), na nossa última oportunidade de ataque antes das penalidades. E assim conquistamos o tetracampeonato pro Nikkei Curitiba.

Em 2009 e 2010 não conquistamos nenhum título brasileiro, fomos vice-campeãs em ambos os anos. Apesar disso, em 2010 entrei pra minha primeira seleção brasileira. Foi a Seleção  do sub-16, técnico era o Fernando Fukuda, junto com o sensei Batata e o tio Mikio. Fomos campeãs da copa mundial nos EUA, e, embora campeãs, não foi uma seleção da qual guardo muitas memórias de jogo. Acho que nem joguei muito nessa seleção, na época eu jogava mais de terceira base e vacilei em alguns jogos pelo nervosismo e acabei não jogando muito. Mas o desempenho do time foi incrível, em todos os aspectos. Pra época, era uma seleção muito forte, com um nível altíssimo.

Em 2011, consegui ser convocada para mais duas seleções, uma adulta e uma sub-17, ambas para disputar campeonatos Sul-americanos. Lembro que a seletiva da seleção adulto foi junto com a seletiva para a seleção do sub19, que iria disputar o mundial na África do sul, e eu queria muito participar dessa seleção. Acabei não sendo convocada pro sub19, mas sim para adulto.

Na seleção adulta, o técnico era o Barão, e conseguiu me convocar pra acompanhar o adulto, aprender e ganhar experiência, pois eu era bem novata no quesito seleção. Acho que essa seleção pesou bastante no meu desenvolvimento como atleta, pelo contato que tive com várias meninas muito experientes e que eu considerava “ídolas” no soft. Entre elas, a Tiemi Murazawa (que nem lembrava que eu tinha ido pra essa seleção com ela), Josie Fugice, Nega (Camila Silva), Lika Jisaka, Hit (Hitomi Kamiya), Kaori Takayasu, Raylla Matsumori e váaarias outras meninas com quem aprendi a jogar o jogo, a liderar, a apoiar e conduzir o time.

Talvez por esse motivo, o sul-americano do sub-17 foi um campeonato “mais fácil” de lidar do que o sub16 do ano anterior. Não tinha mais aquele nervosismo grande em mim. Nesse time, o técnico era o Mikio e o auxiliar o sensei Ishii, de Curitiba. E foi o campeonato que eu estreie internacionalmente como pitcher, junto com a Manami Calixto (que por acaso é minha prima… hahaha). Conquistamos o título de vice-campeãs sul-americanas esse ano. Esse ano também tive minha primeira festa surpresa! Organizada pelas meninas da seleção do adulto durante um treino da seleção sub17. Foi incrível e eu lembro até hoje da sensação hahaha comemorei meus 15 anos com grandes nomes do soft!

Em 2012, fui campeã brasileira pela categoria juvenil e também júnior. Nesse ano, fui convocada pra participar do Canadian Open com a seleção sub19, tendo como técnico o sensei Katiam. Apesar desse torneio não ter um grande valor como um mundial ou Pan-americano, acho que é um dos melhores campeonatos pra se participar. A organização é surpreendente, várias seleções de alto nível participam do torneio, além de times locais.

Além de ser concomitante com o torneio da categoria adulto, fazendo com que pudéssemos assistir vários jogos de alto nível das seleções top do mundo, como Japão, Estados Unidos e Canadá. Não tivemos uma colocação super boa, mas o que vale é o acúmulo de experiência e de amizades, além da superação de nós mesmas, de irmos adiante na fase mata-mata do campeonato. Lembro que nesse torneio me aproximei pra caramba da Kim Chan, pois éramos pitcher e catcher em vários jogos, e criamos uma sintonia que permanece até hoje, mesmo com a distância, mesmo com o tempo.

O ano de 2013 foi um divisor de águas pra mim, pois foi meu ano de terceirão. Prestaria vestibular pra medicina nesse ano, tive de escolher focar em uma coisa ou outra. Foi me oferecida a oportunidade de participar do campeonato Pan-americano adulto, junto com o sensei Higashi, Barão e várias meninas com quem eu sonhava em jogar, além de valer a classificação pros Jogos Pan-americanos de Toronto 2015. Mas, nesse ano, também ocorreria o Mundial sub19, e dessa vez eu tinha quase certeza que seria convocada. Tive de escolher entre uma das duas, pois o tempo era escasso e eu tinha que estudar.

Acabei optando pelo Mundial, já que perderia menos aulas e era um campeonato mais próximo da minha idade e eu tinha mais chances de jogar. Fui novamente com o sensei Katiam e com muitas outras meninas que já jogava de seleções passadas. Fizemos um campeonato ótimo e acabamos com a colocação que era nosso objetivo: “pelo menos a mesma que a seleção da África”, que acho que foi 7 lugar hahahaha.

Outra escolha que tive que fazer nesse ano era a de ir para os EUA jogar soft no college, ou ficar no Brasil e focar nos estudos e na faculdade. Sei que muitas meninas estão passando por essa decisão hoje em dia, e sei das dificuldades de escolher entre um e outro. Sei que a paixão pelo soft, pela sensação de jogar, pesa MUITO na balança. E também sei que a pressão de passar em uma faculdade boa e garantir um futuro certo por aqui também pesa na balança.

Sei que não é fácil, que tem gente opinando de todos os lados. Acho que o importante é ouvir você mesma, é saber que escolhendo um ou outro, você vai ser feliz. É saber que, independente da escolha, o caminho que você tomar vai abrir muitas outras portas e que cabe a você escolher o que vai te fazer melhor.

Voltando à história, fui campeã brasileira juvenil nesse ano e passei no vestibular de medicina pra uma faculdade particular e também pra segunda fase da Federal do Paraná (apesar de não ter sido aprovada nessa). Achei que poderia fazer um ano dessa faculdade particular, trancar a matrícula e ir jogar no college, como via muitas amigas fazendo. Mas, meus pais não deixaram, acreditaram que eu poderia passar na Federal do Paraná se estudasse mais um ano. Se eu fiquei feliz?

Definitivamente não. Só que hoje, olhando pra trás, agradeço a eles por acreditarem em mim e no meu potencial. Acabei passando no vestibular pra medicina em 2014 na Universidade Federal do Paraná. Nesse ano, abdiquei de seleção, e praticamente abdiquei do soft, só treinava aos domingos. Mas, valeu a pena. Não me arrependo de nenhuma escolha.

Em 2015, voltei à ativa no soft. Como começaria na faculdade só no segundo semestre, treinei no ritmo de antes do vestibular durante o primeiro semestre. Nesse ano, fui convocada pra pré-seleção dos Jogos Pan-americanos e também pro Mundial sub19. Ambos aconteceriam antes das minhas aulas começarem, perderia somente a semana inicial de aulas com o Mundial. Acabei sendo cortada da seleção dos Jogos Pan-americanos, o que era esperado, já que nessa lista tinham só as jogadoras mais tops e experientes do soft. Só que acabei sendo convidada pra acompanhar a seleção nos treinamentos restantes e também pra viagem que fariam pra Porto Rico pra treinar antes do Pan. Como estava de férias, e também com a aprovação dos meus pais, viajei junto com a seleção pra Porto Rico.

Aconteceu que lá, infelizmente, durante um dos jogos, a Chie Someya sofreu uma lesão e optou por ceder a oportunidade de participar do Pan pra mim. Sou muito grata a ela por ter me dado essa oportunidade, junto com o sensei Higashi, sensei Barão e toda a comissão organizadora e atletas dessa seleção. Participar dos Jogos Pan-americanos foi uma experiência incrível e inesquecível, apesar de não ter atuado muito em campo, acho que consegui ajudar o time de dentro do bench (com o iPad do sensei e com muito pandeiro hahahahaha né não Samira e Kim??).

O campeonato Mundial foi logo em seguida, acho que não fiquei nem uma semana no Brasil e já viajamos pra Oklahoma pra participar desse campeonato. Eu e a Bibi éramos as mais velhas e mais experientes dessa seleção, o técnico foi o tio Mikio e conseguimos o 10º lugar. Nesse campeonato, jogamos um jogo contra a Inglaterra que durou 12 innings, foi absurdo. Lembro até hoje da emoção subindo ao fechar o jogo pitchando, com a casa cheia, e com um strike out na rebatedora. Lembro que não conseguia nem ver o sign que a catcher, Camilinha Yokota, estava me passando, não sei se por adrenalina ou porque tava escuro e sou míope, sei que senti que deveria jogar um change up e joguei, e a rebatedora girou seco e acabou o jogo. Foi loucura hahahaha.

Além disso, nesse mundial foi me oferecida novamente a oportunidade de jogar em colleges nos EUA e, mais uma vez, a vontade cresceu grande dentro de mim. Só que ali eu já tinha conhecido o pessoal da faculdade, já tinha tido um gostinho do que seriam os próximos anos e optei, mais uma vez, pela medicina ao invés do college. E, mais uma vez, não me arrependo da minha decisão. Por isso, acredito que independente do caminho que você escolhe, o que é pra ser, vai ser.

Em 2016, fui convocada pra participar do campeonato Mundial de adulto, e essa foi a primeira vez que o Brasil participou de um mundial nessa categoria. Também não atuei muito em campo, mas aprendi muito com a Nega. Na verdade, desde que conheci a Nega, em 2010, ela sempre me ensinou muito sobre pitching. Acho que muito da pitcher que eu sou hoje é graças a ela (e também ao sensei Barão que me ensinou desde os 9 anos). Obtivemos a 12ª colocação e conseguimos colocar o Brasil como 13 país no ranking mundial de softbol, acumulando todos os títulos e colocações até então.

Nesse ano, participamos do campeonato sul-americano em Cartagena, no qual tive a minha primeira “real” atuação como pitcher na seleção adulta e também no qual bati meu primeiro e único homerun fora do Brasil. “Real” porque abri e fechei um jogo que classificou o Brasil pra final do campeonato. Ficamos em segundo lugar, mas foi um campeonato que me agregou muita experiência. E também foi o campeonato que acho que o Brasil mais bateu homeruns, não lembro quantos foram, mas lembro que pelo menos metade era da Veronika Fukunishi hahahaha

Em 2017, tivemos o Campeonato Pan-americano de softbol, na República Dominicana. Nesse campeonato, mudou muita coisa das seleções anteriores. O sensei Higashi se aposentou das seleções e o técnico a partir de então é o sensei Barão. Além disso, a Nega acabou não indo nessa seleção, então eu era a pitcher com mais experiência ali, o que me deixou nervosa e ansiosa nos primeiros jogos. Sensação que acabou passando com o decorrer do campeonato e com o apoio das outras pitchers que estavam ali comigo, a Carol Kamidai, que participou comigo do mundial sub19 em Oklahoma, a Fernanda Missaki e a Lyka Watanabe. Foi um campeonato muito bom, apesar de não conseguirmos a classificação para os Jogos Pan-americanos de 2019.

Acredito que foi um campeonato de transição de seleções, e que daqui pra frente vamos conseguir desempenhos cada vez melhores. Nesse campeonato, também, acho que vivenciei o melhor jogo da minha vida até agora. Apesar de não termos ganhado, o jogo contra Porto Rico foi sensacional pra mim. Consegui tirar 2 strike outs de uma menina que eu descobri depois que era a Aleshia Ocasio e foi um jogo apertado, 2×0, poucos erros, batemos mais hits que as porto-riquenhas. Só que elas bateram no momento certo e acabou não dando. Perdemos esse jogo e ficamos com o 8º lugar. Nesse ano, fui campeã brasileira na categoria adulta pela primeira vez.

Em 2018, finalmente hahaha, recebi o Prêmio Brasil Olímpico 2017 do COB na modalidade de softbol. Foi uma cerimônia surreal, coisa que jogadora de soft não está acostumada hahahaha mas, que faz com que a vontade de que o soft seja mais reconhecido pelo país, que possa crescer e que mais atletas possam ganhar esse prêmio.

Atualmente estou treinando pro campeonato Sul-americano adulto, que vai acontecer de 26 de outubro a 3 de novembro, sob o comando do sensei Barão e do Indião, junto com muitas meninas que participaram comigo de outras seleções, tanto do adulto, como do sub19.

Fernanda Ayumi Shiroma fatura Prêmio Brasil OlímpicoE pra terminar, meus agradecimentos. Primeiro aos meus pais, Tchay e Eder, que nunca mediram esforços pra satisfazer minhas necessidades e também da minha irmã. Por me acompanharem desde pequena nos campeonatos, seja pra anotar, arbitrar, cozinhar ou torcer. Muito obrigada, por tudo! E também pra minha tia Sumi e minha batiam Kazue, que também me acompanharam muito no soft, viajando pra cima e pra baixo pra torcer e cozinhar. Além de toda a minha família, que esteve sempre presente, seja no campo, seja no meu dia-a-dia. Segundo pra todos os técnicos que eu já tive na vida, sensei Higashi, sensei Batata, tio Mikio, sensei Katiam, mas, principalmente aos técnicos do Nikkei, que me formaram e que são parte de quem eu sou hoje: sensei Barão, sensei Ishii, sensei Marcelo, sensei Marcos Nagano e sensei Hitomi Watanabe.

Fernanda Ayumi Shiroma fatura Prêmio Brasil OlímpicoMuito obrigada por acreditarem em mim e me darem oportunidades de jogar e participar dos mais diversos campeonatos. E por fim, pra todas as amigas/irmãs que o esporte me trouxe, desde companheira de time lá de 2003, até as companheiras de seleção de 2017-2018. Obrigada Tiemi por me mostrar o que é ser líder; obrigada Nega por me ensinar o que é ser pitcher; obrigada Josie por me ensinar que 50% do batting tá na cabeça; obrigada Vivian por me ensinar a jogar com elegância hahahaha; obrigada a todas as companheiras de time que me ensinaram o que é ser parte de um grupo e a tornar uma equipe, uma família (Sayuri, Vero, Thais, Miwa, Lari, Ju, Maki, Andressa, Amanda, Brumiga, Yuminha, Naru, Mari, Yoshie, Gabriela, Tammy, Chica, Yuri, Rapha, Naomi, Laurinha, Marta, Luizinha, Duda e Pazola); obrigada a todos os tios e tias que adotei pelos campeonatos e viagens hahaha principalmente os tios/tias do Nikkei, que não medem esforços pra fazer do clube um lar pra todos os que frequentam!

Fernanda Ayumi Shiroma fatura Prêmio Brasil OlímpicoDesculpa se esqueci alguém, mas se for citar todo mundo aqui, a lista não vai acabar nunca hahaha Obrigada, então, a todos que passaram pela minha vida, de alguma forma!! E obrigada Samy, por me convidar pra escrever pro site e dividir minha história com o pessoal!

Um abraço,
Ayumi Shiroma

Galeria de Fotos:

(fotos: cedidas pela jogadora)

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