[Coluna] Entendendo quem sou!

Oi pessoal, depois de alguns meses de espera, finalmente vou continuar contando um pouco da minha história de saída do armário e aceitação.

Como terminei no texto anterior, quando entrei na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), da Universidade de São Paulo (USP) em 2005, eu continuei dentro do armário principalmente por medo da reação das pessoas ao descobrirem que eu gostava de mulheres, mas também porque eu, até aquele momento, nunca tinha ficado com uma menina. Então, por mais que para mim fosse muito claro que eu era pelo menos bi, eu não queria ter que ficar me justificando a possíveis perguntas do tipo: “ahh mas como você pode saber se você gosta de mulher se você nunca ficou com uma?!” Ou então “você deve estar se sentindo assim porque ainda não encontrou o homem ideal” e coisas do tipo.

Gente, se até hoje tem gente que não se aceita e vive uma mentira ou gente que está dentro do armário por medo do julgamento dos amigos, medo de perder a família, de perder a carreira – tal como o Diego Hypolito, que saiu recentemente do armário – imagina quase 15 anos atrás!

Uma das primeiras coisas que me envolvi ao entrar na faculdade foi com o time de Softbol. Sem saber disso antes de entrar na FEA, eu já conhecia várias pessoas que estavam no time, então a adaptação foi bem rápida, mas também o medo de que alguém soubesse que eu tinha interesse em mulheres foi bem grande, porque eu não queria que pessoas ligadas ao ANC (Anhanguera Nikkei Clube) soubessem da minha orientação, por puro e simples medo de julgamento.

O ano foi passando, eu fui me engajando cada vez mais com o time (e cada vez menos com o curso de Contabilidade, que era MUITO chato), mas o fato de ninguém saber a verdade sobre como eu me sentia era bem difícil para mim. Até que resolvi contar para uma das meninas do time, que me aceitou e me apoiou muito durante aquele ano, e inclusive guardou meu segredo até que eu estivesse pronta para contar para outras pessoas.

Do lado de fora do time de Softbol, mas ainda na FEA, apesar de eu não gostar do curso, eu gostava bastante do pessoal da minha sala e me aproximei bastante de uma das meninas da sala. Uma vez ela convidou o pessoal da sala para ir na casa dela e um amigo gay dela estava lá (chamo ele de Capivara) e ai morava um perigo grande: todo mundo que é gay tem o tal do radar gay (ou gaydar). A gente em geral sabe quem é e quem não é gay. Até onde eu sei, não existe uma explicação científica para isso, mas que a gente sabe quem é, ahh a gente sabe! E se eu mesmo sem ter ficado com outra garota, sabia identificar quem era ou não, o amigo dela que já era bem resolvido, ia bater o olho em mim e ia saber e me entregar para minha amiga. No fim, acabei resolvendo ir na casa dela, porque por mais que eu não sabia se estava pronta para me assumir para alguém da minha sala, seria bom ter um amigo com quem se identificar e falar especificamente sobre as “questões de ser gay”.

Fui na casa dela e não deu outra: eu mal havia entrado no apartamento dela e ele já me olhou com a cara de “ahh viada, sapatão né!?”. Ao longo do dia a gente cantou, jogou futebol, videogame e mais a noite, quando quase todo mundo já tinha ido embora, eu, ele e nossa amiga conversamos sobre o assunto e ganhei não só um, mas dois aliados nessa busca por “entender quem eu sou e encontrar meu lugar no mundo”.

O ano foi passando e, apesar de eu ter ganhado meu primeiro amigo gay e meus primeiros aliados de causa, eu recorria ao Orkut (olha eu entregando minha idade de novo) para conhecer pessoas “do meio”. Gente, quem reclama que está encalhado em época de Tinder, Happn, etc, imagina quando o único jeito de ter um “match” era em jogos do tipo “beijo ou passo” nos grupos temáticos do Orkut?! Hahaha não era fácil não.

Enfim, em um desses jogos eu me interessei por uma menina e deu match! Combinamos de nos encontrar no extinto Bocage (mais conhecido como Boca), um bar gay que ficava na Consolação e lotava de pessoas LGBT todas as sextas e sábados. Eu estava MORRENDO de medo de ir e ser uma furada daquelas, então convidei uma amiga para ir junto, que graças a Deus aceitou.

Chegando no Boca, fiquei trocando sms (sim, você leu certo, sms) com a garota até encontra-la, mas a menina era tão tímida, mas tão tímida, que eu mal consegui ver seu rosto, eu acho que ela levou mais de uma hora para conseguir me falar “oi”. Aquele dia eu mal consegui falar com ela, mas acabei me aproximando das amigas dela, o que no fim, acabou sendo ótimo, porque elas acabaram virando minhas amigas também.

O dia era 19 de dezembro de 2005 e eu havia ido no Boca encontrar as meninas que eu tinha conhecido pela menina do jogo do Orkut. Eu nem lembro direito como foi antes dos episódios que vem a seguir: mas estávamos no carro, eu dirigindo, dando carona para elas que estavam indo embora, uma delas no meu lado, que já tinha demonstrado que estava interessada em mim e duas delas, que na época eram um casal, no banco de trás.

Eu tinha CNH há pouco tempo e estava me gabando por nunca ter arranhado o carro ou coisa do tipo quando de repente BAM! Bati o carro hahahahaha cara, que merda. Estava no cruzamento da Vergueiro com a Lins de Vasconcelos seguindo em frente, na Vergueiro, numa faixa que era obrigatório entrar a direita e uma mulher, que estava na faixa do meio, que era obrigatório seguir em frente, me atingiu. Foi um baita susto, a mulher causou comigo, etc, mas quando tudo se resolveu nós seguimos rumo ao Tatuapé, que era onde eu iria deixá-las. No caminho, a menina que estava do meu lado me deu todas as diretas possíveis sobre querer ficar comigo, mas eu não estava muito interessada. Só que no fim, pouco antes de descer do carro, ela me desafiou e eu acabei dando um beijo nela.

Gente, foi horrível. Hahaha Foi algo completamente vazio de sentido, de sentimento, de qualquer coisa. Foi só um beijo e nunca mais a encontrei. Eu só não comecei a achar que era hétero porque eu ainda gostava de “A” (lembram? se não lembra, corre lá na coluna e relembre).

Alguns dias depois, no natal, eu e o Capivara resolvemos ir no Boca e ai uma menina super bonitinha veio falar comigo e acabei ficando com ela também. Pronto, tinha acabado com a primeira má impressão que eu tinha tido com o meu primeiro beijo e definitivamente eu gostava de mulher.

Conforme o tempo foi passando, eu fui conhecendo mais gente que também era LGBT e com isso acabei me afastando dos meus amigos héteros da faculdade, inclusive do Softbol da FEA. Por mais que eu adorasse jogar, eu ainda não me sentia a vontade para me assumir para todo o time (ou mesmo na faculdade) e eu não gostava de ter que ficar mentindo sobre minha vida. Então acabei parando de jogar e acabei me jogando de cabeça no mundo gay: era balada todo fim de semana e às vezes até durante a semana! Fiquei por seis meses curtindo “la vida loca” sem muita responsabilidade e quase larguei a FEA, porque eu odiava cada vez mais o curso de contábeis.

Ai veio a primeira conversa bomba com meu pai, em 2006. Como eu estava bastante irresponsável, só querendo sair e quase largando a FEA, meu pai me chamou para aquela conversa. Depois de um sermão que nem vale a pena falar aqui, ele perguntou se eu era gay e óbvio que eu neguei. Gente, meus pais eram as pessoas mais homofóbicas que eu conhecia! Meu pai sempre fazia cara feia quando via algo sobre gays na TV (o que, naquela época, era MUITO raro) e eu cresci ouvindo minha mãe dizer que preferia uma filha p*ta a uma filha sapatão. Então eu neguei né.

Apesar de eu estar quase largando a FEA, Buda botou uma luz na minha cabeça e não permitiu que eu fizesse isso e, não só eu não larguei a FEA, como também acabei entrando em Direito no Mackenzie à noite, o que acabou sendo um divisor de águas na minha vida. Diferentemente da FEA, no Mack eu resolvi entrar já assumida, porque assim quem se aproximasse de mim, já saberia quem eu era, eu não precisaria ficar mentindo, então logo no trote dos bichos eu já fui usando uma pulseira do arco-íris.

Essa foi uma das melhores decisões da minha vida. Fiz grandes amigos lá, entrei no time de futsal, que tinha algumas meninas que também eram LGBT e além de ter voltado a ser mais responsável, também pude conhecer várias pessoas legais e me diverti muito no mundo gay.

Em 2007 eu estava bem feliz no Mack, mas muito infeliz na FEA e dai resolvi tentar a transferência para o curso de Administração. E essa foi a melhor decisão que tomei na vida (apesar dela ter me custado alguns anos, já que só consegui me formar na FEA em meados de 2012). Eu consegui a transferência e já no segundo semestre estava cursando Adm. O curso tinha muito mais a ver comigo do que Contabilidade, mas dado que eu era aluna de transferência, as panelinhas já estavam formadas e criei laços com pouquíssimas pessoas que conheci ao longo da graduação.

Chegou 2008 e eu estava cansada de viver dentro do armário na FEA, então aos poucos fui me assumindo para as pessoas mais próximas e no fim, era tudo bem. Nunca ninguém na FEA fez com que eu me sentisse mal por gostar de mulheres. Nesse ano, inclusive, eu até fiquei com uma menina de lá! E foi nesse ano que acabei tendo que abandonar a graduação em Direito no Mack para começar a trabalhar.

Até então, nessa altura da minha vida, em 2008: eu não era assumida para os meus pais, nem irmãos (só minha irmã mais velha sabia), aliás morria de medo de pensar na possibilidade deles descobrirem, mas já era assumida para boa parte dos meus amigos de ambas as faculdades e me sentia à vontade para ser quem eu era de forma plena fora de casa.

Bom pessoal, continuo o resto em outra oportunidade. Prometo não ficar tanto tempo assim sem escrever!

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