[Coluna] Afinal, a culpa é da colônia japonesa?

Quem nunca! Pena que nos últimos anos, este coro tenha, cada vez mais, se tornado algo pejorativo, indicando que um dos graves motivos da falta de desenvolvimento do softbol (e do beisebol, evidentemente) tenha sido a excessiva centralização da modalidade na colônia japonesa.

Mas, será que é mesmo por aí? Afinal, estamos falando de um processo que foi iniciado há mais de 100 anos, com influência direta de outros grupos, numa época em que o esporte era tratado como uma atividade meramente recreativa.

É evidente que existem diversas questões históricas e que vai muito além do esporte, algo que em nossa modalidade, foi marcada por um determinado viés político-econômico que vai desde a influência americana na “exportação” do beisebol e do softbol em países que recebiam as suas grandes companhias, até o simples entendimento sobre o porquê da modalidade não ser inserida na grade de atividades escolares, por exemplo, algo que até hoje é insistentemente discutido em tom de “deve ter”, mas nunca em “como faremos”.

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Mas, conduzir a discussão, reduzindo a uma única forma de compreensão, cria apenas uma tensão desnecessária por algo que já deveria ter sido discutido: como seria o beisebol e o softbol sem a colônia japonesa?

Essa é uma chave importante e existem dois caminhos que gostaria de destacar, entre uma infinidade de questões, meramente por ser anterior a qualquer debate técnico, político e financeiro:

  1. O país do futebol não possui, nem nunca possuiu uma estrutura à altura de seu repertório de conquistas.
  2. O brasileiro não gosta de futebol, de vôlei ou de beisebol. O brasileiro gosta de ganhar!

Esses dois pontos nos ajudam a elucidar esse debate por expor o nosso comportamento quanto cidadãos, já que um esporte para se tornar massivo, depende de sua entrada no repertório popular. Mas massificar, não traz garantias de saudabilidade, uma vez que o processo de desenvolvimento esportivo requer apoio constante de políticas de incentivo, algo que é ponderado pela sua expressão em termos quantitativos e de interesse imediato, vide o cenário de prática do tênis, do MMA e até mesmo do surf nos últimos anos.

Trazendo a régua mais próxima da nossa realidade, vale observar o rugby, um esporte incrível e que se aparelha ao beisebol e o softbol em termos culturais, e que passou por um processo interessante de apoio e divulgação que levaram a resultados expressivos, mas a ausência de um título de grande repercussão, ainda responde ao porquê da modalidade esportiva não estourar no Brasil.

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Por outro lado, o mais recente sucesso do esporte mundial, o futebol americano, que tem uma curva de crescimento muito interessante visto os demais esportes de nicho, também passa por instabilidades, uma vez que boa parte dos praticantes tinha, em particular, o interesse pela NFL e consequentemente pelo Super Bowl antes mesmo de um interesse pelo esporte. Muitos viam no futebol americano a chance de praticar algo que soava como democrático, mas que na prática, exige um mínimo de conhecimento esportivo, algo que muitos tiveram pela primeira vez ao iniciar na modalidade, e que em grande parte, rapidamente desistiram, se mantendo como espectadores fiéis.

Mesmo o MMA, puxado pelo sucesso do UFC, se aproveita de um país com tradição nas artes marciais, produzindo uma geração vencedora que coloca os brasileiros no hall dos grandes lutadores, mas que diferente do que foi cravado por especialistas, não chegou nem perto da explosão do futebol.

O ponto é que, o esporte brasileiro, sempre dependeu de figuras que fizeram mais pelo esporte, que o esporte poderia fazer por eles. Tudo isso pela própria história de um país que ainda busca entender muitos de seus reais problemas, e quem sabe, um dia, resolvê-los. E o esporte é a representação perfeita da problemática brasileira, que na clássica indagação do “quem vem primeiro: o ovo ou a galinha?”, coloca o incentivo como resposta a algo que deu certo, e não como o ponto de partida para algo que vai dar certo.

E, nesse ponto, quando olhamos para o beisebol e o softbol, é de se celebrar que uma comunidade tenha cuidado tão bem de um esporte que estava fadado a sumir do mapa, acompanhando naturalmente o ciclo de vida daqueles que lutaram para enraizar o esporte em solo brasileiro, já que a modalidade perde praticantes no mundo inteiro pela sua própria dinâmica, clássico questionamento puxado pelos veículos de mídia que sofrem para mantê-lo nas grades de programação.

Logo, é preciso entender que discutir o sucesso do beisebol e do softbol sob a influência da colônia japonesa exige, no mínimo, um descolamento daquilo que é de caráter funcional, que envolve políticas públicas e privadas, como a implementação em escolas e a construção de lugares para que toda e qualquer pessoa possa praticar; daquilo que é de caráter individual, que envolve única e exclusivamente os tomadores de decisões, tanto nos clubes que regem as regras de aceitação, ao nicho da modalidade, e as lideranças dos órgãos e entidades que decidem os rumos do esporte no país.

E principalmente: os clubes são de cultura japonesa, antes mesmo de serem clubes de beisebol e softbol. Concordando ou não, cada clube tem a sua identidade e o poder de decisão mediante as regras e valores que cultivam. Isso explica o sucesso de alguns, e o ostracismo de outros, e que vale, também, para muitas questões além do jogo, como em casos de pessoas sem descendência japonesa que já sofreram alguma intimidação de caráter preconceituoso, bem como os atletas que venceram no exterior graças aos ensinamentos praticados nestes clubes.

É importante lembrar que as decisões são tomadas por pessoas, estas que passam, enquanto os clubes ficam. Clubes que têm resistência a determinadas ideias de caráter restritivo só enfraquecem aquilo que se deseja preservar: os valores da cultura japonesa.

Está mais que provado que o isolamento não leva a nada, e historicamente vemos clubes acabando pelo fato das famílias não estarem mais ativas como antes. E isso está diretamente condicionado à forma como os clubes são administrados e como ainda dependem da colaboração braçal, exigindo uma participação ativa e frequente das famílias, na contramão de um mundo que evoluiu em diversas questões, como o papel da mulher no mercado de trabalho (que impactam o acompanhamento dos filhos visto o modelo tradicional da dona de casa), a fragmentação da atenção para outras atividades e até mesmo a valorização dos momentos de descanso visto o mundo frenético como está.

Merchan retangulo okSomado a tudo isso, insistir numa comunicação direcionada exclusivamente às pessoas de “sobrenome japonês”, é o que contribui para matar a tradição, já que as pessoas que chegavam ao clube com o desejo de praticar o esporte e de quebra, vivenciar uma cultura alternativa, se frustraram e passaram a buscar outros caminhos, como os times amadores que, verdade seja dita, carregam o esporte em sua essência e fazem o que o beisebol e o softbol poderiam fazer (“poderiam”, contrário de “deveriam”), expandindo cada vez mais a cultura de um jogo com raízes extremamente orientais, um oásis num continente de influência norte americana.

Vai chegar um momento que será inevitável discutir como os clubes tradicionais e equipes amadoras podem chegar num consenso, de modo que os clubes mantenham suas origens baseadas na tradição, na disciplina, no colaborativismo e em muitos outros valores de extrema importância, mas entendendo que somos todos brasileiros e que preservar uma cultura passa pelo exercício da adaptação ao tempo.

Isso, por exemplo, vale para o judô e até para o universo gourmet, com o polêmico temaki de cream cheese, que pode ser uma distorção da receita tradicional, mas ainda é um temaki (#polêmica!), assim como o duelo do século: a pizza. Uma portuguesa pode ser tão incrível como a clássica napolitana, e ainda assim ninguém questiona se é pizza ou não. Kebab, Tex Mex, African Veggy…

Adaptações são necessárias e, se bem aproveitadas, jogam a favor, pois servem como gatilhos de interesse para que haja uma busca pelo que é “raiz”, pelo “original”, e naturalmente a tradição ecoa da forma correta.

A tradição vive, e sempre viverá!

Portanto, não, a colônia japonesa não é a culpada pelo beisebol e o softbol não se desenvolverem mais massivamente no Brasil. Assim como o Mackenzie e as empresas que mantiveram o esporte no nível semiprofissional e que também não abriam as portas, também não são. Inclusive, o Mackenzie retomou um projeto muito interessante, mas ao que é possível observar, ainda passa por um processo de estruturação que o mantém em caráter restritivo.

Infelizmente ainda não encontramos a resposta, mas já podemos eliminar uma dessas verdades absolutas, estabelecidas sem base alguma, já que a única responsabilidade dos clubes de origem japonesa é apenas com a própria história, fruto de decisões de isolamento que afetam sua origem e cultura. Todo o resto é sobre pessoas, decisões e atitudes, para o bem e para o mal. E desconectar a origem do sobrenome é parte fundamental para ter-se mais clareza da pergunta que realmente precisa ser feita.

Enquanto isso, seguimos com os pés no chão e lutando para que o esporte se desenvolva, em exemplo como tem sido feito brilhantemente pela comunidade do softbol, que particularmente (para alguém que vem do beisebol), é de se aplaudir.

Menos mimimi, e mais atitude, mais colaboração. Problemas existem, e vão continuar existindo, mas a roda precisa girar e precisamos do maior número de pessoas possíveis para que o sonho persista, com um esporte mais acessível para o maior número de pessoas e regiões possíveis. Respeitar a diversidade é ser, acima de tudo, eficiente. Afinal, somos um monte de mestiços multiculturais, e o dia que entendermos isso e usar de forma inteligente, a coisa certamente explode.

#juntossomosmaisfortes

Até a próxima!

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