[Coluna] Arbitragem: Dos jogos regionais amadores até a Olimpíada

Figura 1: Clínica para Iniciantes (Surrey, Canada) - Março 2019A arbitragem no Softbol (assim como em qualquer esporte) é composta por variadas funções, desenvolvimento e cargos para proporcionar uma arbitragem justa aos diferentes tipos de jogos e eventos pelo mundo. Os cursos de capacitação são o primeiro contato em geral à arbitragem e podem ser feitos mesmo por crianças e adolescentes, em geral jogadores. Depois de alguma experiência em partidas amistosas e com supervisão de instrutores, o início em campeonatos em categorias menores. Após experiências em campeonatos regionais, conhecimento das regras e mecânicas e desenvolvimento de condução do jogo e apreciação, posicionamento, gestos e sinais, os árbitros podem ascender à arbitragem internacional. Após aprovado em seminário de certificação internacional, o árbitro deve ser também indicado pela própria federação, se manter ativo (tanto em jogos realizados como em atividades fora do campo, como supervisão de campeonatos, cursos de capacitação, comitê de regras, etc.) e ser escolhido pelos chefes regionais (ou mundiais) para os campeonatos internacionais. Dependendo da performance nos campeonatos internacionais, alguns árbitros chegam ao sonho de participar de uma Olimpíadas. Um sonho comum a maioria dos amantes de esportes e que começa quando ainda somos crianças.

Figura 1: Clínica para Iniciantes (Surrey, Canada) - Março 2019O primeiro contato com a arbitragem aqui no Brasil acontece, em sua maioria, com ex-jogadores ou pais de atletas. Há países com o mesmo público, porém há outros que se inicia cedo, como nesse curso para iniciantes (Level 1) no Canadá onde 32 dos 36 participantes eram garotas adolescentes.

Nos cursos para iniciantes é passado os gestos básicos, onde se posicionar para ter os melhores ângulos para as jogadas mais comuns e a importância do árbitro para uma partida. O árbitro só existe porque duas equipes em um jogo aceitam e respeitam regras mínimas de convivência e buscam meios justos e imparciais baseadas em regras internacionais e locais. Como a arbitragem é feita também por um ser humano, os erros e aprendizagem também fazem parte, porém o mais importante é garantir que nenhum dos times possam ter vantagens injustas por regra ou condução do jogo. Nos primeiros jogos, sempre com supervisão de um instrutor ou árbitro experiente, os iniciantes vão aprendendo a se concentrar, se posicionar, olhar a jogada como um todo, esperar o final da jogada e decidir. Dessa forma, é trabalhado a autoconfiança e autoconhecimento. Esses foram os maiores incentivos que os pais de uma pequena árbitra de 13 anos me disseram ao perguntar o porquê a apoiam na arbitragem, além de melhor entender as regras e os próprios árbitros quando joga de forma competitiva em sua categoria.

Árbitra de 12 anos em jogos categoria até 10 anos (North Delta, BC, Canada - Julho 2015)Após os primeiros jogos supervisionados, o próximo passo é arbitrar em torneios e campeonatos regionais acumulando experiência para ir subindo de nível das categorias onde os jogos ficam mais disputados e decididos em detalhes. O trabalho do árbitro também deve subir de qualidade de acordo com o calibre e qualidade dos jogos. Essa é uma das etapas mais longas, que necessita de muitos jogos, erros, acertos, estudo das regras, compreensão da mecânica e trabalho em equipe para o desenvolvimento do árbitro. Não é possível falar de um árbitro, deve se falar sobre a arbitragem pois é um trabalho em equipe. O time conduziu ou não bem um jogo, não um árbitro em específico. Como há diferentes tipos de jogos (categorias maiores, masters e menores, masculino ou feminino), todos os árbitros são necessários (como diria o nosso coordenador da ASB, Mario Yoshida). E ao melhorarem seus jogos, mais automática fica a movimentação do árbitro, que muitas pessoas não enxergam, mas o condicionamento físico é muito importante para a performance dos árbitros: é necessário resistência muscular para mais de 300 agachamentos e atividades cardiorrespiratórias em dia para coberturas de bases, jogadas e mecânica. Existe avaliação física nos seminários de certificação internacional, assim como pode ser também realizado dias antes do campeonato.

Seminário Internacional de ArbitragemAlguns árbitros optam por continuar o desenvolvimento rumo à certificação internacional. Muito mais que uma escolha individual, essa é uma escolha familiar. É comum o fato de alguns árbitros viajarem apenas para campeonatos, abdicando muitas vezes de tempo com família e amigos. A certificação internacional é feita com instrutores estrangeiros com duração de cinco a seis dias composta por avaliação em campo, provas teóricas, orais e práticas, além do exame físico, que é desqualificante. Atuar em campeonatos internacionais com companheiros muitas vezes desconhecidos é um desafio: seguir os protocolos, conhecer bem a regra, ser cortês porém firme, se comunicar com os outros árbitros (dentro e fora de campo), num ambiente não-familiar muitas vezes com técnicos de equipes preparados para ir à vírgula da regra se isso ajudar sua equipe. São de dois a três jogos por dia, durante quatro a seis dias seguidos (eu já fiz 20 jogos em 6 dias, com temperatura acima de 25º, com picos acima de 35º e alta umidade, em Santo Domingo em 2017), numa convivência praticamente familiar com árbitros de diferentes locais e culturas, fazendo os dias de campeonatos serem longos, intensos e emocionantes, criando memórias únicas para cada evento. Diante disso e pela escola que representa e de própria, eu diria até predestinação, alguns árbitros se destacam mais que outros.

Mundial Masculino Adulto 2015 (Saaskaton, Canada)Pontos que fazem um árbitro se destacar entre seus pares são a capacidade de concentração, timing, raciocínio rápido para se adaptar às jogadas, sabem o posicionamento indicado no manual para cada situação, mas sabem buscar outra posição mantendo a visão dos Quatro Elementos (bola, base, defesa e ataque) sempre que necessário. Lidam com stress e pressão de um estádio cheio, com torcida muitas vezes contrária, com times ansiosos e técnicos e jogadores sob pressão. Sabem acelerar um jogo lento e reduzir a temperatura num jogo quando ambos os times estão aumentando animosidades. Demonstram autoridade, porém com cortesia. Não é uma tarefa fácil, mas é prazerosa ao terminar o jogo e ver que o espírito esportivo de uma competição justa e inclusiva prevaleceu. Apenas alguns árbitros de cada geração conseguem chegar a arbitrar uma olimpíada. Além de uma irregularidade da participação do Softbol na agenda de competições olímpicas, somasse o fato de apenas 8 a 12 árbitros por edição serem convocados. Em abril de 2019, existem 270 árbitros considerados ativos na WBSC de 41 países diferentes. Mais de 1200 árbitros foram certificados desde 1977, de 61 países diferentes. O número pode parecer grande, porém apenas nos Estados Unidos, existem mais 10 mil árbitros e apenas 51 deles (0,5%) são árbitros internacionais ativos.

O caminho para a Olimpíada pode ser longo e ser atingido apenas por poucos, porém o sonho olímpico é parte do sentimento mais importante do amor por um esporte. Dedicação, a busca da melhoria contínua, superar desafios, trabalho em equipe são um fim em si mesmo, e não apenas um caminho para chegar a um grande evento e esquecer todos os benefícios adquiridos na longa caminhada e que cada um sabe o quanto custou chegar até ali.

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