[Coluna] Descobrindo-se

Eu sou a Juliane Goulart, joguei softbol de criança até o cursinho pelo ANC (Anhanguera Nikkei Clube) e depois pela faculdade (FEA/USP – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade); hoje brinco de soft nos mistos com o pessoal da família Matsumori. Eu sou casada com a Lia, estamos juntas há mais de sete anos e temos quatro filhos de quatro patas: a Preta, a Luli, a Mini e o Bartô.

Eu não lembro exatamente em que ano comecei a jogar softbol. Acho que foi entre 1994 e 1996, quando eu tinha em torno de 8 e 10 anos. Sim, muitos de vocês ainda não eram nem nascidos e lá estava eu, uma criança que não era descendente de orientais, em um clube com um monte de gente diferente, mas ao mesmo tempo muito parecidos [Rellen e Raylla que o digam! rs.], para praticar um esporte que nunca tinha ouvido falar, mas que fui conhecer porque gostava de jogar taco na rua com os moleques.

No começo foi meio estranho, eu não sabia lidar com as meninas, que já tinham a panelinha formada, e nem elas sabiam lidar direito com a novata. Mas o tempo foi passando, duas amigas de infância e que eram minhas vizinhas se juntaram ao time e tudo ficou mais fácil para todo mundo. E ai surgiu ela na minha vida: minha primeira melhor amiga! Nós fazíamos tudo juntas, catch-ball, sentávamos sempre juntas na mesa pra almoçar, trocávamos cartas semanais [siiim!! Cartas!! Whatsapp ainda estava LONGE de ser inventado], sentávamos juntas nas viagens de ônibus para jogar o Brasileiro em Maringá, nos encontrávamos durante a semana, enfim.. éramos o maior grude! Até então, tudo normal. Éramos grudes, mas não só eu e ela, como também as outras meninas do time, tínhamos os nossos peguetes, trocávamos segredos sobre os meninos que a gente gostava; coisas comuns de adolescentes.

Chegaram os anos 2000, ano em que nos formamos no ensino médio. Eu, como melhor amiga, fui convidada pra sua formatura, onde conheci vários dos seus amigos e vários desses amigos me passaram seus ICQs [pois é, já perceberam que sou velha] e os ICQs de outros amigos da escola dela, mas que não estavam na formatura. E foi ai que tudo começou.

De repente, eu estava conversando via ICQ com vários dos conhecidos da minha melhor amiga e me dei particularmente bem com uma em especial, que vou chamar de “A”! A sintonia tinha sido imediata. Naquela época, os celulares ainda não eram populares, não existia internet a cabo ou fibra e, para não gastar uma fortuna de telefone por conta da internet ainda ser discada, eu só podia conectar depois da meia-noite, quando o tempo todo contava como apenas um pulso, então era indiferente ficar um minuto ou horas online. E eu ficava contando as horas, muito ansiosa, para que chegasse meia-noite e eu pudesse falar com ela.

No começo eu nem pensava que era “estranho” ficar ansiosa pra falar com outra menina e só fui me dar conta que eu sentia algo a mais depois que a gente se conheceu pessoalmente. Foram uns três anos e várias idas e vindas de amizade virtual entre o primeiro “oi” no ICQ [que depois foi substituído pelo MSN] até nos conhecermos de fato: um dia de janeiro de 2003 eu marquei de encontrar uns amigos do soft/beisebol no shopping Santa Cruz e ela, que morava perto, falou que poderia me encontrar lá, na catraca do metrô. E ai, quando a vi pela primeira vez, eu pensei: maaaano, fudeu.

Meu coração acelerou, minhas mãos suaram frio, mas eu fui lá, firme que nem prego na areia, falar “oi” para ela. Mas se alguém esperava mais emoções por aqui, sinto em decepcionar: o resto do dia não foi nada de mais, a “A” e outra menina que ela tinha convidado pra ir junto me conhecer, passaram o dia no shopping comigo e com os meus amigos; depois, saímos mais algumas vezes e perdemos o contato.

Calma! Não acaba aqui.

Depois de alguns meses sem contato e com a minha vida muito bagunçada por conta de um peguete da escola, fui com uma amiga, também da escola, no shopping Santa Cruz [detalhe, minha escola ficava em Osasco, mas sei lá porque resolvemos ir no Santa]. Almoçamos lá e depois fomos pegar um cinema, mas entre o almoço e o cinema, resolvi passar no banheiro do andar da praça de alimentação e tive uma surpresa: quem estava saindo do banheiro no exato momento em que eu estava entrando? Sim! Ela mesma! “A”!!

Ela tomou um susto, eu um maior ainda e falou: “Juuu!! Quanto tempo! Nossa que saudade, mas meu, preciso correr que tô atrasada, depois nos falamos!” e eu mal tive tempo de reagir. Sabe quando você fica com aquela cara de John Snow de quem não entendeu nada do que aconteceu? Então….

Fui ao cinema e quando já estava em casa à noite recebi uma ligação dela pedindo desculpas por não ter falado direito comigo e querendo marcar de me encontrar. E obviamente eu sai com ela. Aonde fomos? Santa Cruz, óbvio. Haha

O tempo foi passando e fomos ficando cada vez mais próximas, cada vez mais inseparáveis. Graças a ela, inclusive, eu não desisti de entrar na USP e consegui uma bolsa para fazer cursinho [com ela] no Objetivo. E apesar de eu me sentir diferente, eu nunca parava pra pensar em como me sentia, porque eu só queria estar perto, e estando perto eu estava feliz.

Por um tempo, fizemos tudo juntas e dormíamos muito uma na casa da outra. E numa dessas dormidas na casa dela, um irmão dela começou a falar que eu e ela éramos namoradas e a partir daí, tudo começou a ficar ruim, mas muito ruim mesmo. A mãe dela era super religiosa e me proibiu de frequentar a casa dela. E depois de um tempo, ela acabou parando de falar comigo e então as coisas ficaram muito, mas muito difíceis.

Eu estava apaixonada por uma amiga, absolutamente ninguém sabia da minha paixão por ela, porque eu MORRIA de medo da forma como meus amigos e, principalmente, minha família iria reagir quando descobrisse [eu cresci ouvindo minha mãe dizer que preferia uma filha prostituta a uma filha lésbica], eu não tinha se quer um amigo gay para me apoiar e ajudar, ainda tinha que estudar para o vestibular. Cara, 2004 foi um ano zuado. Nos afastamos depois que as aulas já tinham começado, eu acabei ficando amiga das amigas dela, então nós convivíamos, mas ela desprezava a minha existência em 99% do tempo. E mesmo assim tudo o que eu queria era ficar perto, mesmo sofrendo muito com a forma com que ela me tratava.

Eu literalmente não sabia como lidar com isso e precisava falar com alguém. Como eu não tinha dinheiro pra uma psicóloga e nem podia pedir para os meus pais, reuni coragem e contei para uma amiga que conheci no cursinho que eu estava apaixonada por “A”. Cara, eu tirei um caminhão de cima dos meus ombros. Minha amiga me apoiou muito e foi essencial no processo de aceitação de que eu estava apaixonada por outra menina. Com o tempo, fui perdendo um pouco do medo e fui contando para as minhas amigas mais próximas que eu estava apaixonada por “A”.

Mas mesmo contando para as minhas amigas que eu gostava de outra menina, eu não me encaixava de verdade em nenhum grupo. Faltava identificação, sabe? Eu sempre tive facilidade para fazer amigos, mas depois que me descobri, eu não conseguia me encaixar em nenhum lugar e hoje entendo que foi assim porque eu tinha vergonha de quem eu era, porque eu tinha que esconder e mentir sobre algo importante a meu respeito.

Acabei me afastando de boa parte do pessoal do softbol/beisebol, dos meus amigos da escola e da minha infância. Ou seja, acabei me afastando da maioria dos meus círculos de amizade. Só aqueles que eram muito próximos e que me senti à vontade para mostrar quem eu realmente era eu mantive perto de mim durante essa “fase de aceitação”.

Bom, voltando a “A”. O ano de cursinho acabou e eu entrei na FEA-USP, ela não passou no vestibular, e dessa maneira a gente finalmente se afastou. No dia da matrícula descobri que a FEA tinha um time de soft e daí comecei a jogar pela faculdade.

Nesse momento, apesar de já estar bem claro pra mim que eu era pelo menos bi, eu ainda tinha medo da reação das pessoas ao descobrir que eu gostava de mulheres e, ao invés de já entrar toda colorida na faculdade, o que eu fiz? Continuei dentro do armário.

Mas gente, eu já escrevi bastante por hoje, então na próxima eu continuo contando sobre os acontecimentos da minha vida. Tenham calma: há bastante luz no fim do túnel.

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